Biodiversidade

O que é biodiversidade?

O termo ‘biodiversidade’ foi cunhado a partir da expressão ‘diversidade biológica’, mas transcende o seu significado original. No começo da década de 1980, ‘diversidade biológica’ era sinônimo de riqueza de espécies; em 1982, o termo adquiriu o sentido de diversidade genética e riqueza de espécies e, por fim, em 1986, com a contração da expressão, expandiu-se para abrigar além da diversidade genética e da diversidade de espécies, a diversidade ecológica.

Em 1986, no 1º Fórum Americano sobre diversidade biológica, organizado pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA (National Research Council, NRC), Wilson, substitui a expressão “Diversidade Biológica” por “Biodiversidade”, e sua publicação1 contribui para a popularidade do termo, sendo adotado com rapidez no campo científico de forma quase contínua2, além de ser incorporada por ambientalistas, líderes políticos e cidadãos no mundo todo.

Em 1992, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), popularmente conhecida como a Convenção da Biodiversidade, define, em seu segundo artigo, o termo ‘diversidade biológica’ como a “variabilidade entre organismos vivos de todas as origens compreendendo os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas.” Apesar das controvérsias em torno dessa definição, a CDB consolidou uma forma de ver a biodiversidade e contribuiu para introjetá-la na pauta política de seus mais de 180 países signatários.

A biodiversidade entendida como na CDB, trata, portanto, da variabilidade genética, da diversidade de espécies, de ecossistemas e de paisagens. Além disso, trata também das relações entre esses componentes da biodiversidade, ou seja, sua função e sua estrutura.

Assim, é costume adotar-se2 a diversidade intraespecífica (dentro da mesma espécie) abrangendo toda a variação entre indivíduos de uma população, bem como entre populações espacialmente distintas da mesma espécie. Na prática, essa diversidade tem sido tratada como equivalente à diversidade genética, embora possa incluir diversidade morfológica, de comportamento, etc, sem ater-se estritamente à base genética de tais diferenças.

A diversidade interespecífica (entre espécies), por sua vez, corresponde ao que se chama de diversidade de espécies, ou seja, a variedade de espécies existente em um dado ambiente ou região definida.

Já a diversidade de ecossistemas, tem sido tratada como relacionada à diversidade de fisionomias de vegetação, de paisagem ou de biomas. Entretanto, ainda que ecossistemas sejam essencialmente sistemas funcionais, caracterizados por sua dinâmica, usar a dinâmica como base para avaliar, inventariar ou monitorar a diversidade de ecossistemas é pouco praticável, embora não impossível.

Veja no quadro abaixo algumas outras definições de biodiversidade.

Definições de biodiversidade

No início da década de 1990, vários pesquisadores foram entrevistados por David Takacs, que, entre outros resultados, compilou uma série de definições do termo “biodiversidade”3. Nessas definições é possível identificar, pelo menos, duas grandes correntes: a que aposta na diversidade de espécies e a que considera os processos biológicos, de alguma forma, como parte da biodiversidade. Seguem alguns exemplos:

  • “A variedade de populações geneticamente distintas e espécies de plantas, animais e microorganismos com os quais o homem compartilha a terra e a variedade de ecossistemas dos quais eles são partes integrantes”. Paul Ehrlich, 1992.
  • “Biodiversidade é o número total de linhagens genéticas na terra”. Thomas Eisner, 1992.
  • “Biodiversidade é a soma das espécies da terra incluindo todas suas interações e variações com seu ambiente biótico e abiótico no espaço e no tempo”. Terry Erwin, 1991
  • “A dimensão da diferença nos múltiplos níveis de organização biológica, considerando todas as diferentes entidades e todos os diferentes processos”. Donald Falk, 1992.
  • “Total de genes, populações, espécies e o conjunto de interações que eles manifestam”. Daniel Janzen, 1992.
  • “Variação, variabilidade ou variedade de organismos vivos, o que inclui variação intraespecífica e os níveis de comunidades, ecossistemas e paisagens”. K.C. Kim, 1992.
  • “Diversidade de todos os níveis de organização”. Thomas Lovejoy, 1992
  • “A diversidade biótica total indicada como o número de espécies e a diversidade genética que abrangem”. S.J. McNaughton, 1992.
  • “Variedade da vida e seus processos”. Reed Noss, 1992.
  • “Diversidade de espécies que existem num determinado ecossistema”. David Pimentel, 1992.
  • “A soma total de plantas, animais, fungos e microorganismos no mundo, incluindo sua diversidade genética e o envolvimento de todos em comunidades e ecossistemas”. Peter Raven, 1992.
  • “É a vida em todas suas dimensões, riqueza e manifestações, não apenas no nível de indivíduos e espécies, mas também no nível de agregações, comunidades, etc.” Michael Soulé, 1992.
  • “Variedade da vida ao longo de todos os níveis de organização, desde diversidade gênica em populações, diversidade de espécies, que devem ser encaradas como a unidade pivotal de classificação, até diversidade de ecossistemas”. Edward O. Wilson, 1992.

Os sistemas biológicos não se resumem apenas à mera presença dos organismos, seu funcionamento depende dos organismos e das interações entre eles. Por isso, foi proposto4 que a biodiversidade possui três componentes fundamentais através dos quais pode ser aferida: a composição, a estrutura e a função. A composição diz respeito a que elementos constituem a unidade biológica; a estrutura, como eles se organizam fisicamente; e a função versa sobre o fato de processos ecológicos ou evolutivos manterem ou serem produzidos pela unidade biológica considerada. Assim, a biodiversidade abarca os processos que geram e mantêm as espécies, a variabilidade genética, a diversidade de populações e comunidades, a multiplicidade de ecossistemas e paisagens, bem como todas suas relações com o meio físico e entre si.

Além do número de espécies, outros aspectos da biodiversidade podem ser representados pelo número de níveis tróficos presentes, o número de guildas, a variedade de ciclos de vida e a diversidade de recursos biológicos, devendo ser considerados quando busca-se uma caracterização ecológica e ambiental. Algumas espécies podem desempenhar um papel importante para a riqueza total de espécies, tais como polinizadores, simbiontes mutualistas, patógenos reguladores da população e agentes de controle biológico com efeitos sobre a biodiversidade local.

Assim, mostra-se sensato o argumento de cientistas e pesquisadores de que a conservação de genes, espécies e comunidades isolados não é suficiente para manter todos os fenômenos biológicos desejados, pois alguns resultam, por exemplo, das interações únicas entre determinados componentes dos sistemas.

Para que diversidade genética?

Nos primórdios do século XIX, a batata era um dos produtos mais cultivado na Europa continental e no Oeste da Inglaterra. Na Irlanda, a batata se converteu na base da economia e da dieta alimentar, principalmente para os camponeses, que não comiam nada além de batatas durante o longo inverno, que se apresentavam como um alimento bem equilibrado nutricionalmente. Entretanto, em 1845, uma doença atacou o plantio, destruindo-o completamente e causando uma fome sem precedentes.

Essa doença das batatas na Irlanda ilustra um dilema constante da agricultura, que por sua vez nos remete à questão da variabilidade genética. Para produzir a ‘melhor planta’, que proporcionará a máxima produção, agricultores e cientistas cruzam e selecionam as plantas durante gerações até obter a combinação certa de algumas características. Em seguida, desenvolvem todo o plantio a partir dessa forma melhorada; ou seja, todas as plantas possuem um único progenitor, são geneticamente uniformes. Troca-se a variabilidade genética pelo item alimentar perfeito. Entretanto, a falta de diversidade genética torna a variedade única muito suscetível a doenças: se algum fungo, vírus ou bactéria atacar as plantas com sucesso, pode devastar toda a colheita, uma vez que as plantas são, todas, geneticamente iguais e apresentam as mesmas condições de defesa e adaptação.

Os irlandeses cultivavam suas batatas a partir de uma ‘planta melhor’ única. Com o estabelecimento da doença, causada por um fungo, perderam não apenas toda a colheita de 1845, como também a possibilidade de reagir em seguida, plantando variedades resistentes. Nas populações naturais, ao contrário, a diversidade genética dos indivíduos assegura que alguns serão imunes à doença e que parte da colheita sobreviverá. Esses sobreviventes darão origem às plantas do ano subsequente que serão, por consequência, resistentes àquela doença.

Histórias semelhantes podem ser contadas para muitos dos principais produtos agrícolas e a salvação da lavoura, na maior parte dos casos, está na diversidade genética encontrada nas variedades selvagens. Além dessas variedades selvagens serem encontradas apenas em seu ambiente natural, muitas vezes espaços especialmente protegidos, elas necessitam continuar vivendo nesses ambientes para que permaneçam como um estoque genético potencial, fator de prevenção para futuras doenças. É o fato de continuar a viver no ambiente natural que permite ao organismo se modificar ao longo do tempo e se manter adaptado às condições ambientais que vão se alterando continuamente.

Fragilidades como essa não ocorrem apenas em relação a pragas naturais como no caso das batatas e os fungos, mas também em relação a alterações climáticas. Imagine que há uma planta adaptada a condições específicas de seu ambiente, como a um regime de chuva e a um determinado intervalo de temperatura e que é repentinamente exposta a outras condições: a temperatura sobe e as chuvas escasseiam, provocando secas mais prolongadas. Nossa espécie hipotética sofrerá bastante e, certamente, alguns indivíduos menos resistentes morrerão. Não obstante, graças à variabilidade genética entre os seus indivíduos, há alguns mais resistentes e que são capazes de sobreviver nessas novas condições ambientais. Estes se reproduzirão e gerarão novas plantas, adaptadas às novas condições, permitindo que a espécie sobreviva nesse local. No caso das mudanças climáticas, essa diversidade é essencial e pode significar a extinção ou não de uma espécie.

O que a Rainha de Copas tem a ver com biodiversidade?

Quando Alice, perdida no País das Maravilhas, encontra a rainha de Copas e deseja lhe fazer algumas perguntas, percebe que, para se manter ao seu lado, teria que correr continuamente. Mas por mais que corresse, permanecia no mesmo lugar, e essa era a única maneira possível de conversar com a rainha... A diversidade genética possui um papel semelhante, é ela que permite aos seres vivos continuarem “correndo” para permanecerem no mesmo lugar e sobreviverem. Isto é, como o ambiente em que vivemos é dinâmico, os seres vivos precisam mudar constantemente para permanecerem adaptados às condições do meio e, assim, sobreviverem.

A importância da biodiversidade não se restringe ao valor intrínseco das espécies, é só olhar em volta e para dentro para perceber que muito do que nos é necessário e desfrutamos provêm da natureza: a madeira da mesa onde estamos trabalhando; o papel onde escrevemos; o alimento; a roupa que vestimos; a diversão nos parques, cachoeiras, praias e muitas outras. Da mesma forma, há outros processos que também são essenciais para nossa sobrevivência, são proporcionados pela natureza e não percebemos com tanta facilidade: regulação atmosférica, ciclagem de nutrientes, conservação dos solos, qualidade da água, fotossíntese, decomposição, etc. São bens e serviços obtidos direta e indiretamente dos ecossistemas, que proporcionam condições para a manutenção da nossa espécie e são conhecidos como serviços ecossistêmicos.

Tais bens e serviços são classificados em quatro grupos, segundo a MEA (Millenium Ecosystem Assessment5): provisão, regulação, suporte e culturais (Figura). Essa classificação é a mais utilizada, embora algumas alterações tenham sido propostas. Os serviços de provisão englobam os produtos obtidos dos ecossistemas e que são oferecidos diretamente à sociedade, como alimentos e fibras naturais, combustíveis, água, recursos genéticos, entre outros. Os serviços de regulação propiciam os benefícios obtidos pela sociedade a partir da regulação natural dos processos ecossistêmicos, tais como regulação do clima; manutenção da qualidade do ar e controle da poluição, por meio da regulação da composição dos gases atmosféricos; regulação dos fluxos de água (ciclo hidrológico) e controle de enchentes, evitando inundações e contribuindo para a recarga dos aquíferos; controle da erosão; purificação da água; redução da incidência de pragas e doenças através de controle biológico, regulação de danos naturais e polinização de plantas agrícolas e silvestres.

Já os serviços de suporte concedem as condições necessárias para que os demais serviços possam ser disponibilizados à sociedade. Sendo assim, os benefícios são, geralmente, indiretos e se manifestam à longo prazo, como a formação e a manutenção da fertilidade do solo, a produção de oxigênio, a ciclagem de nutrientes e a produção primária. Além disso, englobam a biodiversidade (genética e de espécies), encontrada em ambientes naturais constituindo o suporte a todo o funcionamento dos ecossistemas, dando-lhes resiliência às mudanças externas. Nos demais serviços, os benefícios são diretos e, normalmente, ocorrem em prazos menores. Por exemplo, a sociedade não utiliza diretamente o serviço de formação do solo, embora alterações neste afetem indiretamente o bem-estar, porque alteram o fluxo do serviço de produção. Serviços culturais, por fim, correspondem aos benefícios não materiais obtidos dos ecossistemas, que contribuem para o bem-estar da sociedade, como enriquecimento espiritual e cultural, desenvolvimento cognitivo, reflexão sobre os processos naturais, oportunidades de lazer, ecoturismo e recreação.

Em 2018 foi lançado o Sumário para Tomadores de Decisão6 do 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade & Serviços Ecossistêmicos, documento elaborado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), apoiada pelo Programa BIOTA-FAPESP. Os pesquisadores avaliaram que apesar de no Brasil a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos serem percebidos como obstáculos ao desenvolvimento econômico, são elementos fundamentais para o enfrentamento de crises socioeconômicas e ambientais. Isto por trazerem novas oportunidades de desenvolvimento, por exemplo, nas áreas de turismo, cosméticos, fármacos e alimentícia. A Plataforma Brasileira opera no âmbito da Plataforma Internacional, criada em 2012 por mais de 100 governos como um mecanismo para fornecer informação científica em resposta aos pedidos dos tomadores de decisão, sob o guarda-chuva de quatro entidades das Nações Unidas: PNUMA, FAO, PNUD e UNESCO, e é administrada pelo PNUMA. A IPBES envolve cientistas e outros detentores de conhecimento ao redor do mundo para analisar e avaliar informações científicas e técnicas relevantes, produzidas mundialmente, para a compreensão da biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

Sendo assim, a abordagem de serviços ecossistêmicos veio na perspectiva de aproximar a natureza da abordagem econômica, de modo a valorar os bens e serviços providos pelo meio ambiente ao ser humano. A concepção consolidou-se e emergiram classificações dos bens e serviços, mas a mensagem importante dessa conceituação é que nossa saúde, alimentação e segurança dependem direta e indiretamente da biodiversidade. De medicamentos à produção de comida, a biodiversidade é essencial ao bem estar humano. Compreender essa relação e interdependência é importante para tomadas de decisão diante do cenário de pressões e desafios ambientais, que comprometem funções e serviços ecossistêmicos e, portanto, impactam também a vida humana. Leia mais sobre a temática no Depoimento de Nurit Bensusan.

O que conhecemos sobre ela?

A biodiversidade é, portanto, um aspecto estimado, que influi direta e indiretamente na vida humana e que envolve variabilidade genética, de espécies, ecossistemas e paisagens. Apesar disso, pouco conhecemos efetivamente sobre a biodiversidade.

Quantas espécies há na Terra? Quantas já houveram? Tais questões ainda são enigmáticas, inclusive pois, estimativas muitas vezes partem de pressupostos altamente controversos. Na realidade, frente à pergunta ‘o que conhecemos da biodiversidade’, uma resposta melhor seria ‘não sabemos quanto representa exatamente o que conhecemos’.

Se tratarmos exclusivamente do número de espécies existente no planeta, há apostas que variam de cerca de 2 milhões até 6 bilhões. A partir dos anos 1980, as pesquisas com besouros nas florestas tropicais elevaram as expectativas. Hoje, o acesso a áreas antes não pesquisadas como os pólos e as profundezas do mar, também tem feito as estimativas subirem.

A maior parte das espécies que já foi descrita pelo ser humano, ou seja, identificada e nomeada, é constituída de insetos. Das cerca de 1,9 milhões de espécies vivas já descritas até 2018, cerca de metade são insetos, incluindo 300 mil besouros, e apenas aproximadamente cinco mil são mamíferos, como nós.

Em países tropicais com grande diversidade, como o Brasil, há ainda, a questão da carência de dados, não só devido à riqueza (número de espécies) e abundância (número de indivíduos por espécie), mas também devido ao reduzido número de especialistas e regiões de difícil acesso. Estima-se que a biota brasileira corresponda a aproximadamente 13% da biota mundial, e o conhecimento dessas espécies é fundamental para se ter sucesso na conservação e no uso sustentável desse nosso rico patrimônio. Apenas entre os anos de 1978 a 1995, foram descritas no Brasil 7.302 espécies de animais sendo 69% insetos (na verdade, essa estimativa é para um grupo taxonômico denominado metazoário, que congrega a grande parte dos animais, excluindo-se apenas um pequeno grupo pouco conhecido a não ser por especialistas)7 e 8.

A tabela abaixo apresenta o número de espécies conhecidas registradas no Brasil e no mundo9. Houve um agrupamento com certa liberdade taxonômica para melhor compreensão por parte dos leitores não especialistas, mas as tabelas originais com seus detalhamentos pode ser acessada integralmente diretamente nas publicações.

Grupo Espécies do Brasil Espécies no mundo
Vírus 310 - 410 3.600
Bactérias 800 - 900 4.300
Fungos 13.090 - 14.510 98.998
Protozoários 7.650 - 10.320 76.100 - 81.300
Plantas 43.020 - 49.520 310.129
Animais total 103.780 - 136.990 1.424.153
*Invertebrados 96.660 - 129.840 1.359.365
*Peixes 3.420 31.153
*Anfíbios 775 6.515
*Répteis 633 8.734
*Aves 1.696 9.990
*Mamíferos 541 5.487
TOTAL GERAL 168.640 - 212.650 1.800.000 - 2.000.000

Acredita-se que muitas das espécies que existem e ainda não foram descritas sejam espécies pequenas, pouco coloridas, com distribuição geográfica restrita e ameaçadas de extinção, o que dificulta seu reconhecimento e catalogação. Além disso, mais do que saber quais são as espécies, é necessário compreender onde estão, sua abundância e seus atributos funcionais e funções, além de seu papel ecológico, e elaborar políticas de conservação e manejo.

Recortes Ecológicos

PAISAGEM

A primeira referência à palavra “paisagem” aparece por volta de 1000 a.C., no "Livro dos Salmos”, em que apresenta conotação visual e estética. Tal concepção foi adotada em seguida pela literatura e pelas artes em geral, principalmente pela pintura na segunda metade do século XVIII. Atualmente a paisagem é definida, segundo dicionário Aurélio, como “um espaço de terreno que se abrange num lance de vista". A palavra “paisagem”10 permeia, portanto, as artes, geografia, geologia, arquitetura e ecologia e, possui, dessa forma, conotações diversas em função do contexto e da pessoa que a usa.

A ecologia de paisagens é uma área de conhecimento dentro da ecologia, marcada pela integração de duas principais abordagens: uma geográfica, que privilegia o estudo da influência do ser humano sobre a paisagem e a gestão do território; e outra ecológica, que enfatiza a importância do contexto espacial sobre os processos ecológicos e a importância destas relações em termos de conservação biológica. A ecologia de paisagens seria, portanto, uma combinação de uma análise espacial da geografia com um estudo funcional da ecologia.

Essa abordagem promove a integração necessária para a aplicação prática, uma vez que se propõe encarar os ambientes como mosaicos antropizados, na escala na qual o ser humano está modificando o seu ambiente. Na “abordagem geográfica”, procura-se entender as modificações estruturais, e, portanto, funcionais, trazidas pelo homem no mosaico como um todo, incorporando de forma explícita toda a complexidade das inter-relações espaciais de seus componentes, tanto naturais quanto culturais. Na “abordagem ecológica”, situa-se na escala adequada para responder aos principais problemas ambientais, tanto relacionados à fragmentação de habitats quanto ao uso inadequado dos solos e da água.

Para compatibilizar uso das terras e sustentabilidade ambiental, social e econômica, é necessário planejar a ocupação e a conservação da paisagem como um todo. Por exemplo, a proteção de apenas um fragmento de vegetação ou um trecho do rio é insuficiente se houver comprometimento no entorno do fragmento ou em suas cabeceiras. A espécie humana está na origem de muitos danos ambientais, mas é também parte das soluções.

Uma vez que o conflito em si não é a humanidade, mas modelos de desenvolvimento predatórios que buscam subjulgar processos sistêmicos e revertê-los a produtos. Ao lidar com a paisagem como um todo, considerando as interações espaciais entre unidades culturais e naturais, incluindo-nos assim a seu sistema de análise, a ecologia de paisagens adota uma perspectiva adequada para a proposição de soluções a problemas ambientais.

Fragmentação

Fragmentação é o nome dado ao o processo no qual, após dado distúrbio, uma grande extensão de habitat é subdividida em fragmentos menores, que apresentam menor área total do que o habitat inicial e estão isolados uns dos outros por uma matriz de habitat diferente da original11. Tal processo é reflexo da retirada de vegetação nativa e ocupação do território por práticas produtivas e de convivência (manchas urbanas). Trata-se de uma das maiores causas mundiais de perda de biodiversidade.

A fragmentação de habitat introduz uma quebra na continuidade da distribuição da vegetação original, reduz o habitat disponível aos organismos e acrescenta bordas a uma paisagem até então contínua. Este processo pode implicar em perdas de biodiversidade e mudanças na distribuição e abundância dos organismos.

Fragmentos podem diferir quanto à sua forma, tamanho, micro-clima, regime de luz, solos, nível de isolamento e tipo de uso da terra. Assim, uma paisagem contínua, a partir do processo de fragmentação, torna-se uma paisagem com elementos antes inexistentes, e as características desses elementos e sua forma de interação promovem respostas bióticas e abióticas que alteram a composição e a estrutura da comunidade, bem como o padrão espacial da paisagem.

As mudanças drásticas na geometria e atributos da paisagem alteram o microclima do habitat, expondo organismos à insolação, ventos e dessecação12, alterando a composição e estrutura da comunidade, uma vez que algumas espécies são extremamente dependentes de condições abióticas ideais para germinação, crescimento, estabelecimento, florescimento e polinização. A fragmentação influencia também as interações entre plantas e animais, consequentemente afetando a densidade populacional de polinizadores e dispersores e a demografia e o recrutamento das plantas13.

Em uma paisagem fragmentada são reconhecidos três componentes: a matriz, componente mais extenso da paisagem, altamente conectado, que controla a dinâmica regional14 – por exemplo, uma plantação de soja, pinheiro ou pasto, ou mesmo a mancha urbana, no caso de cidades; fragmentos, remanescentes do habitat original, reorganizado espacialmente em manchas menores e de menor área total, que apresentam certo grau de isolamento entre si; e os corredores, que são unidades que diferem da matriz e conectam os fragmentos15.

A composição e permeabilidade da matriz são variáveis que alteram a conectividade da paisagem, sendo a conectividade a capacidade da paisagem de facilitar os fluxos biológicos, ou seja, a continuidade espacial do habitat original14. A conectividade depende da proporção da paisagem que os fragmentos ocupam, característica diretamente relacionada ao tamanho dos fragmentos e ao grau de isolamento entre eles, sejam barreiras espaciais ou ecológicas. Fragmentos maiores e com maior diversidade de habitats teriam mais condições de manter os processos ecológicos e um maior número de espécies e populações viáveis. Está também intimamente relacionada à existência de corredores16, que além da capacidade de conectar fragmentos, facilitando a sobrevivência dos organismos durante seu fluxo entre as manchas, podem apresentar as condições necessárias de habitat temporário ou permanente para algumas populações.

Portanto, em uma paisagem cuja matriz possui baixa permeabilidade, a mobilidade dos organismos e sua consequente dispersão e colonização de novos fragmentos é comprometida. O que pode ser ilustrado por um remanescente de mata incrustado no meio urbano e na probabilidade de atropelamento da fauna. Uma matriz mais permeável seria um ambiente cujas alterações não tivessem sido tão drásticas e se aproximasse do ambiente original.

ECOSSISTEMAS LITORÂNEOS

Considerando a grande extensão costeira do Brasil, os ecossistemas costeiro e marinho correspondem a um vasto e biodiverso recorte ecológico. Eles ocupam aproximadamente 4,5 milhões de km2 do território sob jurisdição do Brasil. Representa mais que um conceito geopolítico, abriga e abrange extensões de uma paisagem e de vidas biológicas e humanas diversas.

Ao longo da costa litorânea e mares do Brasil, onde vive quase um quarto da população brasileira - cerca de 50 milhões de habitantes - estão comunidades pesqueiras, extrativistas, comunidades tradicionais de pesca e outros povos do mar17 e 18, dentre os quais se encontram aproximadamente 800 mil pescadores e pescadoras, de dois milhões de habitantes responsáveis por 55% da produção pesqueira nacional18. Esses habitantes tradicionais de nossa costa resguardam uma herança cultural indígena, africana e portuguesa, presente entre as mais variadas técnicas de captura, como timbó, espinhel, tarrafa e processamento do pescado, nas habitações, na música (a viola, o pandeiro, a caixa e o acordeão) e nas festas (como o fandango), marcados pelo encontro dessas culturas, que povoa o universo do caiçara, jangadeiro, o catador de caranguejo e outros povos do mar.

A Zona Costeira é um patrimônio nacional, conforme o artigo 225 da Constituição Federal do Brasil de 1988, e se estende por mais de 8.500 km de norte ao sul do país, cujas terras estão voltadas para o Oceano Atlântico. A área da Zona Costeira na parte terrestre é variável e abrange 17 Estados e mais de 400 Municípios. Inclui ainda o mar territorial, que correspondente à faixa marinha de 12 milhas náuticas, ampliando a área para 514 mil km². A Zona Marinha tem início na Zona Costeira e abarca a plataforma continental marinha e a ZEE (Zona Econômica Exclusiva), que no caso do Brasil corresponde a 200 milhas náuticas da costa19,20,21.

A zona costeira compreende regiões de transição ecológica com a importante função de promover a conexão e trocas genéticas entre os ecossistemas terrestres e marinhos, além de barreira contra inundações, intrusão salina e erosão19. É constituída por ecossistemas que constituem as restingas, as dunas, os cordões arenosos, os estuários e deltas, as lagoas costeiras, os manguezais, as marismas, os costões e fundos rochosos, os recifes de coral e de arenito, os bancos de algas calcárias, as plataformas arenosas e as ilhas oceânicas (como Fernando de Noronha que resultou do vulcanismo e soergueram desvinculadas do continente); ou de relevo sedimentar com baixa altitude, como a Ilha Comprida no litoral de São Paulo, que é um segmento de restinga isolado pelo mar, entre outras19.

Essa complexidade e diversidade de ambientes são de extrema importância para a sustentação de toda a vida biológica marinha e grande produtividade, graças à grande concentração de nutrientes que chegam transportados pelos rios e lençóis de água subterrâneos e pelo aporte de nutrientes de seus mais variados ecossistemas. Devido à ampla diversidade e importância dessa integração entre sistemas terrestres e marítimos, a zona costeira requer maior preocupação quanto à integridade e equilíbrio ambiental por servir a uma diversidade de situações, desde a exploração intensiva de seus recursos naturais à instalação de uma complexidade de indústrias, portos, ambientes de lazer e turismo e à própria ocupação humana.

A biodiversidade marinha é ainda pouco conhecida pela ciência. Esse ambiente por estar mais distante da costa e devido às grandes profundidades, correntes marítimas e tempestades, é menos suscetível a contato humano direto. No entanto, é atingido pela atividade de sobrepesca e intensa extração de petróleo, além de ser o depositário dos mais variados lixos e descargas de poluentes químicos provenientes dos continentes.

Poucas são ainda as unidades de conservação que protegem esse mosaico ambiental que compreende os ecossistemas da Zona Costeira e Marinha. A necessidade de ampliar sua proteção reside também na importância reconhecida internacionalmente dos ecossistemas marinhos na mitigação dos efeitos causados pelas mudanças climáticas globais, pela capacidade de absorver grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

Em 2017, as zonas protegidas abarcam 13,2% do meio marinho compreendido entre a jurisdição nacional (até 200 milhas marinhas da costa), 0,25% do meio marinho fora da jurisdição nacional e 5,3% dos oceanos do mundo. São 4.977 km2 de unidades de proteção integral e 50.739 km2 de unidades de uso sustentável, que representam 1,57% do total desses biomas16.

O Brasil assinou e ratificou (1988) a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), em vigor desde 1994, na qual possui direitos exclusivos sobre o uso e exploração dos recursos e do "mar territorial" (que banha os países signatários). Nessa convenção, os países acordaram em estabelecer mais medidas de gestão e conservação dos recursos vivos na ZEE. Ainda assim, é grande a preocupação com as pressões humanas sobre esse ambiente, que aumenta com a expansão da produção de petróleo a partir do pré-sal e da infraestrutura portuária e a falta de sanções mais severas para o despejo inadequado de lixos domésticos e industriais. Além disso, o turismo, se não bem planejado, pode exercer forte pressão sobre os recursos e funções do ecossistema marinho e litorâneo, assim como a carcinicultura (criação de camarões em cativeiro, em sua maioria exóticos), que tem também envolvido conflitos socioambientais neste ambiente.

Em parte favorecida pela riqueza e grande concentração de nutrientes que chega à zona costeiro marinha, a carcinicultura, entretanto, muitas vezes causa, além de danos ambientais, a expropriação de populações tradicionais e locais de seus territórios. No mundo, cerca de 50% da destruição dos manguezais têm sido atribuídos à implantação dessa atividade22. A sobrepesca também aparece como um fator de intensa pressão: a médio prazo reduz a produção de alimentos, impacta o funcionamento dos ecossistemas e reduz a biodiversidade. Pesquisas demonstram que as populações de peixes marinhos diminuíram em todo o mundo, de 90%, em 1974, para 68,6%, em 2013. Com administração eficaz e recursos suficientes, as zonas marinhas protegidas são mecanismos importantes para salvaguardar os oceanos, em escala mundial.

CAVERNAS

A diversidade também contempla variação de formações, como é o caso das formações espeleológicas, conhecidas como cavernas. O Patrimônio espeleológico brasileiro é extremamente rico e encantador, com uma grande diversidade em sua geomorfologia e biota associada. Segundo a base de dados do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas23 (CECAV) vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Brasil possuía, em dezembro de 2018, 18.012 mil cavernas mapeadas no Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas - CANIE. Entretanto, sabe-se que esse dado ainda é subestimado, e que esse número representa apenas as cavernas já prospectadas e com dados publicados, os quais foram sistematizados, georreferenciadas e analisados pelo CECAV.

O ambiente cavernícola apresenta características muito peculiares quando comparado ao ambiente da superfície terrestre. Dentre estas podemos citar a ausência permanente de luz e a tendência na estabilidade das condições ambientais, tais como temperatura e umidade24 e a grande dependência de uma fonte exterior de recurso alimentar.

A ausência de luz no interior das cavernas impossibilita a manutenção de organismos fotossintetizantes, como plantas ou algas Sendo assim, o deslocamento desse recurso para o interior das cavernas é realizado pelos cursos d’água, temporários ou perenes, ou águas que percolam através de eventuais aberturas pelo teto e paredes e restos de animais mortos que utilizam as cavernas como abrigos ou nela adentram acidentalmente. Uma terceira e muito importante fonte alimentar para a fauna cavernícola é o guano, rico material orgânico oriundo principalmente das fezes de morcegos de hábitos cavernícolas. Em cavernas tropicais, especialmente as permanentemente secas, o guano de morcegos é a mais ordinária fonte de material orgânico, formando a base trófica para a estrutura de comunidades da fauna invertebrada.25

A baixa disponibilidade de recursos nas cavernas configura-se como fator limitante ao estabelecimento de inúmeras espécies e como pressão seletiva à emergência de adaptações aos organismos que nele vivem. As espécies de cavernas, portanto, apresentam adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais, geralmente ligadas às condições físicas do hábitat e à essa escassa disponibilidade de recursos24. Olhos reduzidos ou ausentes, pouco necessários em ambientes sem luz, e outros órgãos sensoriais bem desenvolvidos, como antenas, e a ausência de colorações vistosas na pele são algumas das características presentes em animais cavernícolas.

Segundo o CECAV23, em dezembro de 2018 havia, 4.420 cavernas registradas na Amazônia Legal. Todas elas podem ser localizadas em nosso mapa interativo. A caverna Abismo Guy Collet, localizada no município de Barcelos (AM), região do município sob a qual também incide o Parque Estadual da Serra do Aracá, é considerada a caverna com maior desnível do Brasil, chegando a 670 metros26.

A conservação destes sistemas ecológicos, sensíveis e diferenciados é importante para a manutenção de minerais raros ou formações geológicas inigualáveis e de atividades como lazer (práticas recreativas, esportivas e de contemplação); para o armazenamento estratégico de água, com a carga e recarga de aquíferos; como fonte de informações relativas aos processos geológicos, possibilitando pesquisar a origem, a formação e as sucessivas transformações das rochas locais e do paleoclima outrora ocorrido na região; como provedor de informações da vida pretérita em seus sítios fossilíferos e arqueológicos, nos quais é possível identificar, catalogar e pesquisar espécies de animais e vegetais fósseis, além do estudo cultural dos povos do passado, onde documentos, monumentos e objetos compõem importantes registros dos hábitos vividos de uma determinada sociedade; como abrigo para conservação de habitats de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção; e como ambiente de manifestações culturais e sociais.

BIOMAS

Um dos possíveis recortes da paisagem é em porções nomeadas biomas, conceito que é fruto de ampla discussão na ciência. Bioma corresponde a uma extensa área de espaço geográfico, com dimensões de até mais de um milhão de quilômetros quadrados, que tem por características a uniformidade com relação a um macroclima definido, determinada fitofisionomia ou formação vegetal, fauna e outros organismos vivos associados, e outras condições ambientais, como a altitude, o solo, alagamentos, o fogo e a salinidade27. Estas características conferem uma estrutura e uma funcionalidade peculiares, uma ecologia própria. É importante distinguir biomas de domínios morfoclimáticos. Tais recortes não são sinônimos, uma vez que domínios relacionam-se principalmente a características climáticas, geológicas e do relevo. Há ainda o conceito de fitofisionomias, cuja definição relaciona-se principalmente à composição da vegetação do local. Biomas usualmente são constituídos por um complexo de fitofisionomias e de formações, representando um gradiente ecologicamente relacionado. Por outro lado, em um único domínio pode-se encontrar distintos biomas. Para aprofundar seu conhecimento a respeito da evolução dos conceitos acadêmicos relacionados, leia o histórico artigo do Leopoldo Coutinho aqui.

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), há seis biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Aqui em nosso mapa é possível visualizar todos os biomas e suas intersecções com as UCs.

Classificações brasileiras de vegetação

Veja outros modelos de classificação no Manual Técnico da Vegetação Brasileira28, clicando aqui.

Amazônia

Filho da Floresta

Filho da floresta, água e madeira
vão na luz dos meus olhos,
e explicam este jeito meu de amar as estrelas
e de carregar nos ombros a esperança.
Um lanho injusto, lama na madeira,
a água forte de infância chega e lava.
Me fiz gente no meio de madeira,
as achas encharcadas, lenha verde,
minha mãe reclamava da fumaça.
Na verdade abri os olhos vendo madeira,
o belo madeirame de itaúba
da casa do meu avô no Bom Socorro,
onde meu pai nasceu
e onde eu também nasci.
Fui o último a ver a casa erguida ainda,
íntegros os esteios se inclinavam,
morada de morcegos e cupins.
Até que desabada pelas águas de muitas cheias,
a casa se afogou
num silêncio de limo, folhas, telhas.
Mas a casa só morreu definitivamente
quando ruíram os esteios da memória
de meu pai,
neste verão dos seus noventa anos. - 
Thiago de Mello29

O Bioma Amazônico é o bioma brasileiro de maior extensão, ocupando quase 50% do território, abriga a maior floresta tropical do mundo e contém a maior biodiversidade e a maior bacia hidrográfica do planeta. Distribui-se integralmente por cinco unidades da federação (Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima), quase integralmente Rondônia (98,8%), mais da metade de Mato Grosso (54%), além de parte de Maranhão (34%) e Tocantins (9%).O bioma Amazônico é definido pelo clima dominante quente e úmido, a predominância da fisionomia florestal, a continuidade geográfica, a condição peri-equatorial e o contexto de imensurável sociobiodiversidade30. Unidade territorial nacional, o Bioma integra o Domínio Biogeográfico Amazônico, o qual se estende por quase 7 milhões de km2 e é compartilhado por nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela, sendo que mais de 60% dele (4.212.923 km²) encontra-se no Brasil31.

A diversidade e complexidade do Bioma Amazônico é parte dos processos ecológicos de nove tipos de unidades de cobertura florestal e extensas áreas de contato (zonas de transição) entre si, com diferentes habitats e variações na composição e interação de espécies, estrutura das comunidades naturais e padrões de ciclagem de nutrientes. Devido à sua grande extensão em florestas contínuas, a Amazônia é muito importante para a estabilidade do clima regional. Ela impulsiona grandes quantidades de vapor de água originadas no Oceano Atlântico e transporta-as ao longo da América do Sul, o que assegura a regulação do regime de chuvas em lugares como a Argentina, Paraguai e o centro-sul do Brasil. Estima-se que a evaporação e a transpiração da vegetação amazônica, composta por árvores de até 50 metros de altura, liberem aproximadamente sete trilhões de toneladas de água por ano na atmosfera32. Atualmente sabe-se também que as populações amazônicas tiveram um papel muito importante na formação de paisagens e padrões das atuais paisagens, com influência na abundância, riqueza e distribuição de espécies, alteração dos nutrientes do solo, além de outras estruturas para manejo da água e da pesca e redes de transporte e comunicação, dentre outros.

Segundo o MMA, no bioma estima-se que cresçam 2.500 espécies de árvores (um-terço de toda a madeira tropical do mundo) e 30 mil espécies de plantas (das 100 mil da América do Sul). Ainda assim, o grau de conhecimento sobre os grupos taxonômicos ainda é considerado insatisfatório.

As estimativas situam a região como a maior reserva de madeira tropical do mundo. Seus recursos naturais – que, além da madeira, incluem enormes estoques de borracha, castanha, peixe e minérios, por exemplo – representam uma abundante fonte de riqueza natural. A região abriga também grande riqueza cultural, incluindo o conhecimento tradicional sobre os usos e a forma de explorar esses recursos naturais sem esgotá-los nem destruir o habitat natural. Toda essa grandeza, entretanto, não esconde a fragilidade do ecossistema local. A floresta vive a partir de seu próprio material orgânico e seu delicado equilíbrio é extremamente sensível a quaisquer interferências. Os danos causados pela ação antrópica são muitas vezes irreversíveis. Ademais, a riqueza natural da Amazônia se contrapõe dramaticamente aos baixos índices socioeconômicos da região, de baixa densidade demográfica e crescente urbanização. Desta forma, o uso dos recursos florestais é estratégico para o desenvolvimento da região.

As várias Amazônias

Bacia Amazônica – A Bacia Hidrográfica do rio Amazonas é constituída pelos rios formadores e afluentes do Rio Amazonas – o maior rio do mundo - e toda sua superfície de drenagem, sendo a mais extensa rede hidrográfica da terra, ocupando uma área total da ordem de mais de 6 milhões de km², desde suas nascentes nos Andes Peruanos até sua foz no oceano Atlântico. Esta bacia continental se estende sobre vários países da América do Sul: Brasil (63%), Peru (17%), Bolívia (11%), Colômbia (5,8%), Equador (2,2%), Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%), sendo que a contribuição média em volume d’água da bacia em território brasileiro, é por volta de 73% do total do País33. A Bacia Hidrográfica do rio Amazonas corresponde a quase 40% da América do Sul e 5% da superfície terrestre, sendo o maior compartimento de água doce superficial do planeta, com cerca de 15% do total disponível desse recurso34.

Região Hidrográfica Amazônica - Unidade de gerenciamento para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, é um território brasileiro artificial criado35 em consideração à necessidade de se estabelecer uma base organizacional que contemplasse bacias hidrográficas. Essa Região é constituída pela porção brasileira da bacia hidrográfica do rio Amazonas e pelas bacias hidrográficas dos rios situados na Ilha de Marajó e no Estado do Amapá, perfazendo um total de 3.870.000 km.

Amazônia Legal – A unidade administrativa conhecida por Amazônia Legal Brasileira compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e parte do Maranhão, tendo sido estabelecida inicialmente pela Lei Federal nº 5.173 (Art. 2)36, com posteriores alterações. O Mato Grosso veio a integrar este território no ato de sua criação, com o Art. 45 da Lei Federal Complementar nº 3137 e o estado do Tocantins, criado através das Disposições Transitórias da Constituição Federal (Art. 13)38, em outubro de 1988. Anteriormente o limite da Amazônia Legal neste trecho era o paralelo 13ºS, por onde foi aproximadamente dividido o Estado de Goiás e criado o do Tocantins. Sua criação e diferenciação administrativa está relacionada ao processo de desenvolvimento, ocupação e da integração dessa região às redes e fluxos que norteavam a política desenvolvimentista da época, principalmente por meio da concessão de incentivos fiscais industriais e políticas de assentamento rural.

Composta por uma área de mais de 5 milhões km² (dois terços do Brasil), a Amazônia Legal engloba todo o bioma Amazônico, 37% do Cerrado e 40% do Pantanal39, e é caracterizada por um mosaico de ecossistemas com significativas diferenças tanto em termos de estrutura e interações de comunidades e populações naturais e ocorrência e abundância de espécies da flora, fauna, fungos e microbiota. Representando 59% do território brasileiro e 775 municípios, a Amazônia Legal congrega aproximadamente 24,7 milhões de habitantes40, dentre os quais mais de 433 mil indígenas41 e diversas comunidades extrativistas tradicionais como seringueiros, castanheiros, pescadores artesanais e quebradeiras de coco de babaçu, dentre outras.

Vivem aí também mais de 350 comunidades remanescentes de quilombos32. Ao lado das populações originais indígenas, caracterizadas por uma íntima e específica relação com o ambiente, e das comunidades tradicionais que chegaram a esse território em diferentes épocas e movidas por diferentes necessidades, somam-se hoje populações que mais recentemente passaram a ocupar a região, com variadas formas de produção, de pequenos produtores rurais a grandes empresas do agronegócio.

Veja alguns dados sobre UCs desse bioma em nosso painel de dados

Caatinga

Hoje, a Serra está menos áspera e impenetrável do que no tempo do meu bisavô Dom João Ferreira-Quaderna. Ainda assim, permanece de acesso difícil e penoso. É coberta de espinheiros entrançados de unhas-de-gato, malícia, favela, alastrados, urtigas, mororós e marmeleiros. Catolezeiros e cactos espinhosos completam a vegetação, e conta-se que o sangue que embebeu a terra e as pedras, durante o reinado dos Quadernas, foi tanto que, na Sexta-Feira da Paixão de cada ano, os catolezeiros começam a gemer, as pedras a refulgir no castanho e nas incrustações de prata ou malacacheta, e as coroas-de-frade começam a minar sangue, vermelho e vivo como se tivesse sido há pouco derramado. - Ariano Suassuna.42

O bioma Caatinga é exclusivo do Brasil e patrimônio biológico único no planeta, localizado na região do semiárido (compreendida pelo agreste e sertão) e que abrange quase todo o Nordeste (exceto a zona litorânea e oeste do Maranhão, Piauí e Bahia) e algumas áreas do norte do estado de Minas Gerais. São aproximadamente 84 milhões de hectares de superfície (844.453 de km²) que representa 11% do território nacional43.

O nome "caatinga" é de origem tupi-guarani e designa uma floresta esbranquiçada, característica esta que é nítida durante o período das secas, quando a vegetação perde as folhas e os troncos e galhos se tornam esbranquiçados44. Muitas são as particularidades de suas comunidades biológicas, devido à variação dos tipos de ambientes e microclimáticas e às diferentes estratégias de sobrevivência desenvolvidas pelas espécies de plantas, durante os longos períodos estiagem. Entre as estratégias está a queda das folhagens, como forma de evitar a perda de água, as quais rapidamente são renovadas com presença de chuvas.

O clima da Caatinga apresenta características extremas, desde a mais alta temperatura média anual aos mais baixos índices de umidade e pluviosidade. As chuvas são restritas em poucos meses durante o ano, ocorrendo episódios críticos de escassez de chuvas durante sucessivos anos. Na região do agreste, entre a Serra do Mar e o interior mais seco, as chuvas são mais abundantes. A diversidade climática e edáfica propicia a diversidade de fisionomias, como as florestas altas e secas e comunidades vegetais arbustivas e herbáceas, cactáceas e bromeliáceas e muitos endemismos de plantas e animais. Um exemplo é a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), uma das espécies mais ameaçadas de extinção e endêmica da Caatinga45.

Até o ano de 2017, mais de 60% da população nordestina vivia na Caatinga (27 milhões de habitantes, cerca de 18% do total da população do Brasil), embora esteja entre as regiões com os mais baixos índices de desenvolvimento humano do país43 e 44. A biodiversidade da Caatinga promove diversas atividades econômicas agropastoris e de indústrias químicas, farmacêuticas, de alimentos e cosméticos. Um exemplo é a carnaubeira (Copernicia prunifera), uma palmeira nativa amplamente explorada (folhas, o caule, o talo, a fibra, o fruto e as raízes) para a fabricação de produtos artesanais e industriais, como a cera de carnaúba utilizada para a conservação de produtos alimentícios, o revestimento de pisos e a proteção de veículos automotivos.

Apesar dessa importância, a Caatinga é um bioma pouco estudado no meio acadêmicos e também o mais ameaçado. Estima-se que a caatinga perde por ano uma área de vegetação nativa equivalente a duas vezes a cidade de São Paulo43 e 44. Nos últimos anos, o desmatamento tem crescido de modo acelerado, principalmente com o corte de madeira de forma ilegal, resultando na redução de metade desse bioma.

Veja alguns dados sobre UCs desse bioma em nosso painel de dados

Conheça mais sobre as populações tradicionais da Caatinga e do Cerrado - http://www.cerratinga.org.br/populacoes/

Cerrado

Eu sou a dureza desses morros
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo
Pastados
Calcinados
e renascidos - 
Cora Coralina46

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e ocupa 2.036.448 km², ou 204 milhões de hectares (22% do território nacional), estendendo seu domínio nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além de partes do Amapá, Roraima e Amazonas. No entanto, grande parte desse bioma está situada no Planalto Central Brasileiro, local de origem das grandes bacias hidrográficas brasileiras e do continente sul-americano, além de ser um divisor das águas no país47. Muitos rios que correm para as bacias Araguaia-Tocantins, Paraná, São Francisco e até o Amazonas, nascem no Cerrado, o que explica a existência de inúmeras nascentes, lagos e rios de diversas ordens. Devido a esse papel, a conservação do Cerrado é fundamental na garantia de água para muitas regiões do país e, por tal, é reconhecido como o "berço das águas brasileiras”.48

Assim como os demais biomas, o Cerrado, "não é um bioma único, mas um complexo de biomas, formado por um mosaico de comunidades pertencentes a um gradiente de formações ecologicamente relacionadas, que vai de campo limpo a cerradão".49

Estas características "conferem uma estrutura e uma funcionalidade peculiares (...) e que inclui outro elemento de importância na determinação de certos ambientes terrestres"48, a ocorrência e recorrência natural do fogo. Esta característica foi demonstrada através de vários estudos que atestam a presença do fogo há milhões de anos, como um fator determinante nas características físicas do Cerrado.

Todos esses aspectos contribuem para a grande riqueza e alta diversidade biológica e endemismo, que elevaram o Cerrado à categoria de hotspots mundial. São mais de 11 mil espécies de plantas nativas registradas, além de refúgio de 13% de tipos de borboletas, 35% de abelhas e 23% dos cupins das áreas tropicais. Essa diversidade é favorecida pela alta produtividade do Cerrado, devido ao clima tropical e fortemente marcado por estações bem definidas de seca (abril-maio a setembro-outubro) e chuvas (setembro-outubro a março-abril, verão). A temperatura mínima chega a 10º C no inverno, ou até menos, e até 40º C no verão, mas em geral é predominantemente alta ao longo do ano47,48,49 e 50.

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Alternativas de manejo do Cerrado já são praticadas, dado a diversidade de frutos nativos amplamente consumidos e comercializados nos centros urbanos como o pequi (Caryocar brasiliense), o buriti(Mauritia flexuosa),a mangaba (Hancornia speciosa), a cagaita (Eugenia dysenterica), o bacupari (Salacia crassifolia), o cajuzinho do cerrado (Anacardium humile), o araticum (Annona crassifolia) e as sementes do barú (Dipteryx alata).

"O baru é um fruto típico do Cerrado brasileiro. A castanha tem cerca 23% de proteína e é um alimento de alto valor nutricional. Em receitas e confeitos a castanha de baru pode substituir o amendoim, a castanha de caju ou qualquer outra castanha. Torrada e salgada, pode ser consumida sozinha, como aperitivo. É também utilizada em diversas receitas, doces ou salgadas, como bolos, pães, pé de moleque, cookies, brigadeiro, barra de cereais, granolas e paçoca".51

O intenso desmatamento e a extração predatória do Cerrado têm levado ao desaparecimento e perda dessas espécies como o baru, cuja madeira é reconhecida pela resistência e qualidade, com propriedades fungicidas51. A amêndoa no interior de seu fruto, protegida por uma dura casca, possui sabor similar ao do amendoim, de alto valor nutricional, apreciada e comercializada mundialmente.

Ao longo dos milhares de anos, o Cerrado foi manejado pelas diferentes populações humanas indígenas e, também, pelos quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, babaçueiras, vazanteiros (ou "barranqueiros", famílias que habitam as ilhas e barrancos de rios como São Francisco, Tocantins e Araguaia, cuja agricultura está associada aos ciclos de enchente, cheia, vazante e seca51 e 52. Os conhecimentos sobre os frutos, madeiras e inúmeras ervas que essas populações detêm constituem junto ao bioma uma marca importante em termos de patrimônio histórico e cultural do país. Segundo o MMA50, mais de 220 espécies do Cerrado têm uso medicinal e mais 416 podem ser usadas na recuperação de solos degradados, como barreiras contra o vento, proteção contra a erosão, ou para criar habitat de predadores naturais de pragas.

Geraizeiros

"Nas margens do Rio São Francisco, onde as águas cortam o norte de Minas Gerais, e na área de transição entre o Cerrado e a Caatinga, no oeste da Bahia, habitam os geraizeiros, reconhecidos como agricultores dos planaltos, encostas e vales do Cerrado. A nomenclatura destas populações advém do termo “Gerais” como sinônimo de Cerrado. Segundo seus moradores históricos, antes não havia referência ao Cerrado, apenas aos Gerais, daí o nome geraizeiros".51

Mata Atlântica

Passaredo

Ei, pintassilgo
Oi, pintarroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge, asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tié-sangue
Xô, tié-fogo
Xô, rouxinol, sem-fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te e