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Instituto Mamiraua - http://www.mamiraua.org.br
06/04/2015
Monitoramento acompanha a dinamica da agricultura migratoria

As populações ribeirinhas no interior da Amazônia fazem uso da floresta. Por meio de uma multiplicidade de técnicas, se valem dos recursos naturais para sua subsistência, como no caso da agricultura. Para saber mais sobre esse tema, o Instituto Mamirauá vem monitorando, desde 2009, as atividades agrícolas em comunidades das Reservas Mamirauá e Amanã. Atualmente, dois pesquisadores do Instituto Mamirauá, Fernanda Viana e Carlos Toniazzo, são responsáveis pela atividade.

Na Reserva Amanã, nove comunidades participam do monitoramento. "Elas localizam-se em ambientes de paleo-várzea, onde a dinâmica de plantio de roça e de abertura de áreas para a agricultura é maior do que na várzea, por causa da enchente sazonal", aponta Carlos.

Na dinâmica da agricultura local, há diferentes tipos de áreas de uso. Primeiro temos as roças. Essas são áreas onde o caule da mandioca, chamado de maniva, é plantado para a obtenção de farinha, goma e tapioca. Depois, temos as capoeiras, que são as antigas roças em processo de regeneração ou pousio. Já os quintais normalmente são espaços de cultivo mais próximos das residências. Por último, temos os sítios, que são áreas para o cultivo de frutíferas como o açaí, o cupuaçu ou o abacate, por exemplo. O uso dado a cada área vai sendo alternado ao longo do tempo, assim como as culturas em cada local.

Para iniciar o uso de uma área, a estratégia utilizada pelos agricultores é o corte e queima. "Os agricultores cortam a vegetação para abrir a floresta, queimam o material da área e as cinzas incorporam nutrientes no solo, em seguida fazem as roças. Os agricultores costumam manter a roça por mais ou menos dois anos", conta Carlos. O pesquisador acrescenta que depois desse tempo "uma nova roça será aberta e a antiga virará uma capoeira. Depois de seis, sete anos, ou mais, eles analisam as capoeiras, para ver se está madura e se podem produzir novamente ali".

Esse uso intercalado de diferentes áreas representa a dinâmica da agricultura migratória, também chamado de agricultura de corte e queima ou agricultura de coivara. E a seleção da área, a escolha do tipo de uso, tudo isso tem relação com o conhecimento tradicional: "O conhecimento de saber se uma terra é boa ou não para plantarem, se já podem voltar a usar ou não uma área de capoeira, se ela já está regenerada", afirma o pesquisador.

Na primeira etapa do monitoramento, os agricultores são entrevistados. "Conversamos com cada família sobre suas áreas de uso. Perguntamos sobre o histórico de derrubada da área, do tempo de pousio da capoeira, para entendermos a sucessão de usos de uma mesma área", explica Carlos. "Nas entrevistas também perguntamos sobre as variedades de manivas plantadas nas roças. Estimamos que em uma quadra sejam plantados 10 mil pés de maniva".

Em uma segunda etapa, é realizado o reconhecimento em campo das áreas de uso. Carlos conta que "com o GPS as áreas são georreferenciadas e as extremidades são marcadas, isso porque um dos objetivos da pesquisa é saber o tamanho das áreas que foram abertas para a agricultura". Também é feito um registro fotográfico, que dá indicativos do tempo de cultivo ou de pousio das áreas.

Entre as comunidades participantes do monitoramento existe uma variação importante quanto ao número de famílias morando na área e o tamanho de cada uma delas, o que influiu na prática da agricultura e na lógica de produção adotada. "Geralmente, quanto maior a família, maior a área aberta, porque eles vão conseguir cuidar de mais áreas. Mas a média das roças é de um a dois hectares, no máximo", afirma Carlos.

Os dados gerados ajudam a compreender a dinâmica da agricultura migratória. "Todas as informações são digitalizadas e incorporadas ao nosso banco de dados. Conseguimos quantificar as atividades agrícolas, gerando dados sobre dinâmicas de uso da terra e outras análises", afirma o pesquisador. Estas informações também subsidiam ações de assessoria técnica do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá.

Findo este ciclo de monitoramento, os dados serão devolvidos para os agricultores participantes. "Cada família ou agricultor receberá um mapa de suas áreas de uso, identificando roça, capoeiras, quintais ou sítios. Além dessa informação espacial em formato de mapa, constará também o histórico da área. Nesse momento da devolução trocaremos experiências e discutiremos a gestão e o uso da floresta, a conservação dos recursos naturais e a melhoria da qualidade de vida das comunidades", concluiu o pesquisador.

Desde 2014, essas ações fazem parte do projeto "Participação e Sustentabilidade: o Uso Adequado da Biodiversidade e a Redução das Emissões de Carbono nas Florestas da Amazônia Central" - BioREC - desenvolvido pelo Instituto Mamirauá com financiamento do Fundo Amazônia.

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