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Diario do Nordeste - http://diariodonordeste.globo.com
01/05/2011
Maior desafio e tornar o crescimento duradouro

A seca é um problema climático, cíclico, e até esperado, mas seus efeitos podem ser reduzidos com políticas públicas. Assim pensa o diretor adjunto do Insa, Alberício Pereira de Andrade, que afirma que a região já começa a vivenciar prosperidade. O professor defende o potencial das áreas sertanejas e reforça: "quando se conseguir mobilizar uma parte considerável da infraestrutura e dos muitos talentos já existentes na região, estará se iniciando outra página da história, baseada no paradigma das potencialidades e, não mais, no "choro das adversidades". Para isso, lembra, serão precisos investimentos maciços em educação

Visitamos experiências de sucesso encravadas no semiárido nordestino, casos de municípios que já veem o desenvolvimento econômico surgir por meio de atividades como agricultura irrigada, agronegócio, indústria, turismo, exploração de petróleo, entre outras. É possível, hoje, dizer que o semiárido começa a encontrar o rumo do desenvolvimento?

Sim, no semiárido brasileiro, a prosperidade começa a crescer em diferentes municípios, não mais concentrada nos tradicionais polos de fruticultura irrigada. Para o futuro, o principal problema será tornar duradouro o crescimento, convertendo-o em desenvolvimento, a se sustentar ao longo do tempo. É preciso continuar a investir em educação, com qualidade e em todos os níveis, como o grande diferencial para a consolidação dos pulsos de desenvolvimento atual; investir em infraestrutura, em novas tecnologias e, principalmente, no melhor conhecimento das potencialidades de toda a região semiárida. Esta nossa região é rica em recursos naturais, considerada a de maior biodiversidade, entre regiões semiáridas, em todo o mundo. Precisamos focar em atividades que potencializem as características da região, valorizem sua diversidade, aproveitem suas vantagens, comparativamente às vantagens de outras regiões. Em tais oportunidades e diversidades está o ´rumo´ para um processo sustentável de desenvolvimento, em todo o semiárido brasileiro.

Pode-se falar em alguma vocação econômica para o semiárido? Caso sim, quais seriam elas?

São várias as vocações econômicas do semiárido brasileiro, destacando-se: pecuária com animais de pequeno porte, com ênfase para caprinos e ovinos; mineração; turismo científico, cultural e ambiental; indústria de calçados; fruticultura irrigada. Um fator muito relevante é a diversidade regional, existente no semiárido, fundamental para a implantação de políticas visando ao seu desenvolvimento sustentável. A natureza diferenciada das serras e do sertão é um ponto positivo nesse contexto, bem como a cultura e a própria história de muitas comunidades. A exploração turística de belas paisagens e de riquezas paleontológicas, existentes em diversos locais, como as do complexo Chapadas Araripe - Ibiapaba (CE, PE, PI), Parque Nacional de Ubajara (CE), Cânions do Rio São Francisco (AL, SE. BA), Parque Nacional Serra da Capivara (PI), Parque Nacional de Sete Cidades (PI), dentre tantas outras oportunidades. O desenvolvimento do turismo científico cultural e ambiental dependerá da implantação de programas com esse fim, envolvendo órgãos de governo e das agências de turismo, divulgando e promovendo as riquezas de cada local. Outra grande riqueza está na vegetação nativa, rica em plantas medicinais, com propriedades farmacológicas para os mais variados fins; consideramos os fitoterápicos uma das grandes oportunidades econômicas para o semiárido brasileiro, tantos são os princípios ativos, já encontrados em estudos iniciais envolvendo plantas de nossa vegetação.

O semiárido está tendo a atenção que merece, tanto pela iniciativa pública, quanto pela privada?

De certa forma, sim, sobretudo, da iniciativa pública por meio da interiorização de universidades, institutos de pesquisas e de formação técnica; será necessário, entretanto, esforço maior dos vários níveis de governo para reforço na infraestrutura básica, desde a malha viária, principalmente nos pontos fortes para desenvolvimento do turismo, passando por reforço dos serviços de abastecimento d´água e de esgotos. A iniciativa privada está presente em diversos setores, necessitando de mais investimentos em unidades de hospedarias e de restaurantes, o que certamente ocorrerá com a expansão do turismo.

Apesar dos casos de sucesso, sabemos que estas experiências são exemplos pontuais, que ainda não atingem todo o semiárido. O que falta para envolver a região em um projeto de desenvolvimento?

Por sua diversidade de oportunidades, o desenvolvimento da região dependerá de projetos, programas e planos diversos, segundo as peculiaridades e potencialidades de cada local, sobretudo considerando a necessidade de pensar em ações de longo prazo. Como exemplo, nas áreas ricas em minerais, com perspectivas de exploração econômica, teríamos complexos de extração e beneficiamento de rochas e minérios e oficinas de exploração artesanal. Exercício semelhante pode ser feito nos sítios com potencialidades turísticas. Nas áreas com possibilidades de serem exploradas com irrigação, além de todos os setores de apoio à produção agrícola, deveriam ser instaladas unidades de beneficiamento e processamento, criando-se alternativas para agregação de valor aos produtos e contornando-se problemas de perecibilidade e perdas. Portanto, um grande projeto de desenvolvimento para a região deveria contemplar as potencialidades de cada região e integrar os diversos setores de cada local. Como fator de consolidação ou matriz básica para qualquer esforço de desenvolvimento, precisaríamos ter avanços significativos na educação, reduzindo o analfabetismo e melhorando a qualidade dos processos de ensino-aprendizagem, em todos os níveis.

Falta, na verdade, um projeto integrado para o semiárido? É possível tê-lo, e aplicá-lo?

Sim, falta. E, conforme abordado anteriormente, a base de tudo deverá ser a educação. A região semiárida do Brasil carece de recursos humanos em quantidade e qualidade, mesmo considerando as melhorias, ocorrendo nos últimos anos, nas oportunidades de acesso ao ensino técnico e superior. A possibilidade de se ter e de se aplicar um projeto integrado, dependerá, entretanto, da mudança de paradigmas, não só de fora para dentro da região, mas, também, daqueles que nela vivem. São muito preocupantes os estigmas ainda enraizados, em outras regiões do país e em muitos dos que aqui habitam, de ser o semiárido uma região inviável, pobre e cheia de miséria, verdadeiro fardo a ser carregado pela sociedade brasileira; são conhecidos e divulgados apenas os seus problemas. Novos paradigmas devem ser cultivados: os das potencialidades. As riquezas da região se estendem, também, ao saber e ao fazer de que é muito rica a cultura popular, em muitas comunidades. Quando se conseguir mobilizar uma parte considerável da infraestrutura e dos muitos talentos já existentes na região, em torno de desafios relevantes para o seu desenvolvimento e para o aproveitamento de suas grandes oportunidades, estará se iniciando outra página da história, baseada no paradigma das potencialidades e, não mais, no "choro das adversidades". Enfim, é preciso admitir que o semiárido é uma região de oportunidades ainda adormecidas, sendo, portanto, necessário o Governo Federal considerar, efetivamente, a região como estratégica para o desenvolvimento nacional.

O senhor acredita que instituições como a Sudene poderiam ter uma ação mais eficaz na busca por soluções para esta área?

O desenvolvimento do Nordeste e, em particular, do semiárido será uma tarefa de muitos atores, aliás, de todos os brasileiros, em ações particulares ou em ações institucionais. Diferentemente do contexto de época em que foi criada a Sudene, a sua ação teria (ou terá, dependendo de diretrizes governamentais) condições de ser muito mais otimizada nos tempos atuais, pela oportunidade de interação com uma matriz de Pesquisa e Desenvolvimento e de Ciência, Tecnologia e Informação em consolidação na região.

O agronegócio, que envolve um grande número de trabalhadores e que está dando certo no interior nordestino, é uma solução para a região, ou é preciso focar atenções na agricultura familiar?

Há situações em que o agronegócio, com foco empresarial e comercial, será forte, principalmente no contexto da agropecuária, com sustentação em práticas de irrigação, e muitos outros casos com base de sustentação na agricultura familiar. Acreditamos haver, em qualquer local, espaço e oportunidades para ambas as modalidades de exploração agropecuária, dependendo da atividade.

A seca é um problema climático, mas tem como enfrentar isso com políticas públicas?

Sim, a seca é um fenômeno climático, cíclico e até esperado. Seus efeitos podem ser minimizados com políticas públicas. E as políticas públicas no Brasil para essa questão têm avançado consideravelmente, embora mereçam incrementos e aperfeiçoamentos. Tanto é verdade que o êxodo para o Sul e Sudeste do Brasil perdeu em importância. Vale lembrar que outras áreas semiáridas prosperaram em países como a Austrália, Espanha e Estados Unidos.

A região tem como vencer, de fato, a pobreza e obter desenvolvimento econômico-social?

Sim. Isso requer tempo e investimentos maciços em educação. A região semiárida do Brasil carece de recursos humanos com alta qualificação, mesmo considerando que tenha, paulatinamente, melhorado nos últimos anos. Esse aspecto, certamente, é o cerne que funciona como distúrbio primário capaz de desencadear todos os outros processos. O primordial para tornar o desenvolvimento sustentável do semiárido do Brasil é promover grandes investimentos em áreas consideradas estratégicas, a exemplo da educação no enfoque contextualizado, valorização das potencialidades locais e redução das desigualdades sociais. Enfim, é preciso reconhecer a importância do Semiárido para o desenvolvimento do Brasil, pois não há nenhuma possibilidade do país alcançar a fronteira dos países desenvolvidos, sem levar em conta essa região de grandes dimensões e oportunidades ainda inexploradas.

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