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Instituto Centro de Vida - ICV
10/03/2008
Juruena completa mosaico de UCs da Amazonia Meridional

Criado em 2006 pelo governo federal, o Parque Nacional do Juruena possui uma paisagem exuberante e ambientalmente frágil - dois bons motivos para se tornar uma área protegida. Seus quase dois milhões de hectares abrigam espécies de fauna e flora únicas, fruto do encontro da floresta com o cerrado. É para conhecer melhor essa paisagem que está em campo a II Expedição Científica do Juruena, destinada a realizar o diagnóstico para o plano de manejo do parque.

Localizado no extremo Norte de Mato Grosso e Sudeste do Amazonas, o parque faz divisa com as terras indígenas Kayabi e Munduruku a Leste, e com o moisaico de unidades de conservação do Apuí a Oeste. Toda essa extensão faz parte de uma região conhecida como Amazônia Meridional, que inclui a área do Campo de Provas da Força Aérea Brasileira, a Reserva Biológica das Nascentes de Serra do Cachimbo (RB Cachimbo), o Parque Estadual Cristalino e a Reserva Biológica do Jaru, entre outras.

Responsável pelos estudos para o plano de manejo da RB Cachimbo, realizados em 2005, Gustavo Irgang diz que o que os pesquisadores viram até agora confirmam a relevância ecológica do corredor e mostram que a área do Juruena conserva várias semelhanças em relação ao Cachimbo, em que pese a distância entre as duas unidades de conservação: cerca de 500km.

"Há muito mais semelhanças do que diferenças em relação ao Cachimbo. Temos aqui a mesma ocorrência de transição entre o bioma Cerrado e o Amazônico. Também temos a mesma base rochosa, que foi fundo oceânico entre 1,5 e 1,8 bilhão de anos atrás" diz Gustavo, que é geógrafo.

Grosso modo, pode-se dizer que essa base rochosa foi se deformando e aos poucos formando a Serra do Cachimbo e a Serra de Apiacás, dois acidentes geográficos importantes da porção da Amazônia Meridional, praticamente os últimos degraus do planalto brasileiro. Essa é uma diferença significativa entre as duas unidades de conservação, enquanto a RB Cachimbo é uma paisagem mais recortada, cheia de corredeiras; no PN do Juruena se inicia a planície Amazônica.

No que tange a botânica, a vegetação das áreas mais abertas, chamadas de campinaranas, é praticamente a mesma nas duas unidades de conservação, o que não ocorre em relação às áreas de floresta. Os estudos realizados na RB Cachimbo já haviam apontado que o desmatamento intensivo nessas áreas detona um processo de "savanização", ou seja, uma vez intensamente impactada, a área vira um areal onde a vegetação não se regenera. No Juruena, tudo indica que haja tendência para ocorrer o mesmo processo.

Outro ponto em comum entre as duas unidades de conservação está nos rios. Na RB Cachimbo há muitas nascentes que compõe 11 microbacias, dessas, oito vão para a Bacia do Xingu e três para a Bacia Hidrográfica do Teles Pires. Solange Arrolho da Silva, coordenadora do grupo de ictiofauna na Expedição, diz que já encontrou espécies de peixes comuns às duas unidades, como cachara, jaú e matrinchã.

Ela explica que as diferenças geográficas representam barreiras aos peixes pequenos e grandes. Assim, no Cachimbo há um maior número de degraus nos rios e as espécies registradas no diagnóstico para o plano de manejo da reserva são típicas de ambiente com pequenas corredeiras e pedras. No Parque Nacional do Juruena há basicamente quatro grandes barreiras geográficas para a fauna aquática, o que permite uma distribuição pelos rios.

O diagnóstico para o plano de manejo do Parque Nacional do Juruena é fruto de uma cooperação técnica entre Instituto Centro de Vida, WWF-Brasil e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, Programa de àreas Protegidas da Amazônia (arpa) e Ministério do Meio Ambiente; realizada em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Acre (UFAc).