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30/09/2014
Extrativistas da reserva Unini, no Amazonas, produzem safra recorde de castanha

Coletar o fruto da castanha-da-Amazônia, uma das espécies nativas mais valiosas da floresta de terra firme, sempre foi uma fonte de alimentação e renda para gerações de famílias da Reserva Extrativista (Resex) Rio Unini, uma Unidade de Conservação localizada no médio rio Negro, município de Barcelos, no norte do Amazonas.

Há 16 anos, os extrativistas vendiam a produção da castanha em sistema de troca com os patrões (comerciantes) por alimentos, contraindo dívidas e enfrentando condição degradante de trabalho.

No início dos anos 2000, as famílias do rio Unini começaram o movimento social pela criação da reserva, que foi reconhecida por decreto presidencial em 2006. Daí iniciaram a organização da cadeia produtiva da castanha. Em 2010, abriram a Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (Coomaru).

Neste ano, a fábrica chamada de Central Agroextrativista da União dos Moradores do Rio Unini (Caumoru) começou a operar em escala comercial. As famílias da reserva produziram uma safra inédita de 15 toneladas de castanha bruta, movimentando R$ 100 mil na economia local. A média anual era de 11 toneladas de castanha. Cerca de 188 famílias foram beneficiadas direta e indiretamente pela atividade.

"Vivíamos só no borrador (caderno) do patrão. A gente não sabia qual era o preço da castanha na cidade. Eles pagavam em comida o valor que queriam pra gente. Não vínhamos o dinheiro. Era uma escravidão branca. Com a criação da Cooperativa, foi tirada a corrente", disse João Evangelista Rodrigues de Souza, 51 anos, presidente da Coomaru, em entrevista à agência Amazônia Real.

Segundo ele, a organização da cadeia produtiva da castanha na Resex Rio Unini tem apoio dos governos federal e estadual, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodversidade (ICMBio), da organização ambientalista Fundação Vitória Amazônica (FVA) e da Associação dos Moradores do Rio Unini (Amoru).

"Com esse apoio, começamos a agregar valores ao nosso produto. Trouxemos cursos de capacitação para os extrativistas. Começamos a articulação dentro das comunidades para criação de uma fábrica de beneficiamento de castanha", afirmou João Evangelista de Souza.

Especialista em políticas Ambiental e Energética, Fabiano Silva, coordenador-executivo da Fundação Vitória Amazônica (FVA), disse à reportagem que a ideia das lideranças do rio Unini de construir uma fábrica de beneficiamento da castanha foi colocada em prática a partir do ano de 2007. Um estudo técnico apontou a viabilidade econômica, ambiental e social da fábrica.

O coordenador da FVA afirmou que o investimento no projeto da fábrica foi em torno de R$ 1 milhão, incluindo treinamento e capacitações de mão-de-obra, infraestruturas, maquinários e capital de giro inicial. Para 2014, que marcou o primeiro ano de operação em escala comercial, a produção da fábrica foi viabilizada por um empréstimo de R$ 115 mil da Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam).

"Em 2014 foram beneficiadas cerca de 15 toneladas de castanha bruta, o que gerou uma produção de cerca de 5 a 6 toneladas de produtos acabados. Esta atividade envolveu diretamente cerca de 70 famílias do rio Unini e "injetou" cerca de R$ 100 mil na economia local, recurso relativo à compra de castanha e pagamento de trabalhadores", afirmou Fabiano Silva.

Castanha desidratada foi lançada em Manaus

A Central Agroextrativista da União dos Moradores do Rio Unini (Caumoru) fica na comunidade de Patauá, distante de viagem de dois dias e uma noite de barco da cidade de Barcelos (a 400 quilômetros de Manaus)

Para o beneficiamento da castanha bruta, parte das amêndoas é selecionada e limpa pelas famílias produtoras. Após um breve período de secagem natural, são encaminhadas à Caumoru, onde são descascadas, desidratadas e embaladas a vácuo, o que permite manter sua qualidade e valor nutricional por mais tempo.

O coordenador-executivo da FVA, Fabiano Silva, disse que foram vendidas este ano 2 toneladas de castanhas desidratadas. O principal consumidor do produto é o comércio de padarias, empórios e hotéis de Manaus. "A renda da castanha (desidratada) é destinada à ampliação da escala de produção e a projetos sociais, educacionais, culturais e esportivos que serão implementados pela Associação de Moradores do Rio Unini", afirmou.

As 188 famílias beneficiadas com a produção da castanha-da-Amazônia da Resex Rio Unini moram entre as dez comunidades existentes: Lago das Pedras, Terra Nova, Democracia, Patauá, Tapiira, Manapana, Lago das Pombas, Floresta II, Vista Alegre e Vila Nunes. Segundo a FVA, este ano a receita média de cada família envolvida na atividade foi de R$ 1.500.

"Nossa expectativa é que daqui para frente outros rios (da bacia do rio Negro) sejam envolvidos nesta cadeia de valor ampliando ainda mais o número total de beneficiários do projeto. Já estamos trabalhando com produtores do rio Jauaperí e estamos conversando com comunidades e organizações do médio rio negro e baixo rio Branco", afirmou Fabiano Silva.

Segundo estudo publicado no site da Embrapa, a castanha-da-Amazônia, também chamada de castanha-do-Brasil e castanha-do-Pará (Bertholletia excelsa) é originária de floresta de terra firme na Amazônia Central. A árvore pode atingir 30 metros de altura. O fruto da castanheira, chamado de "ouriço", pode pesar de 500g a 1.500g. "A amêndoa presente no interior da semente é utilizada como alimento e considerada uma das proteínas vegetais das mais completas, possuindo alto valor nutritivo", diz o estudo.

Resex Rio Unini traz história de resistência

A criação da Reserva Extrativista Rio Unini foi marcada por uma luta de resistência dos moradores do Parque Nacional do Jaú e seu entorno, uma unidade de conservação criada em 1980. Com 2,27 milhões de hectares entre os municípios de Barcelos e Novo Airão, no Amazonas, a legislação dizia que as 270 famílias residentes no parque teriam que sair do lugar. Em 2006, o governo federal reconheceu o direito das famílias e criou a Resex Rio Unini com mais de 800 mil hectares. Atualmente, as comunidades, as Ong´s e o ICMBio buscam formas de conciliar a gestão e a conservação da área.

Leia a íntegra da entrevista com o presidente da Coomaru, João Evangelista Rodrigues de Souza, 51 anos, morador na comunidade Patuá, no rio Unini. Na comunidade moram 26 famílias.

Amazônia Real - Como as famílias do Rio Unini sobreviviam da produção da castanha antes da organização da cadeia produtiva?

João Evangelista Rodrigues de Souza - A gente vivia trabalhando com o patrão (o comerciante). Cada um tinha o seu patrão. Extraíamos a castanha e trocávamos por alimentos. No caso, a cesta básica, o rancho. Vivíamos só no borrador (caderno) do patrão. A gente não sabia qual era o preço da castanha na cidade. Eles pagavam em comida o valor que queriam pra gente. Não víamos o dinheiro. Era uma escravidão branca. Com a criação da Cooperativa, foi tirada a corrente.

AR - Como era a troca de castanha por comida?

João Evangelista Souza - Naquele tempo a gente vendia a barrica (uma lata) de castanha. Uma barrica era uma base de 15 quilos, ela molhada. E 10 quilos, ela seca. Um exemplo: se desse R$ 100, a gente recebia R$ 100 de rancho. A gente não via o dinheiro.

AR - Quando começou a mudar essa situação?

João Evangelista Souza - Há 16 anos, fomos assistir uma manifestação de um pessoal das comunidades do médio Solimões (rio formador do rio Amazonas) em Manaus. Acompanhamos a ideia de organização socioambiental deles e trouxemos para o rio Unini. Começamos a organizar a criação da Associação dos Moradores do Rio Unini. Criamos nossa associação e começamos a articular o movimento social nosso em torno da criação da Resex Rio Unini. Os companheiros dessa luta foram nossos amigos da Fundação Vitória Amazônia. Tinhamos também que ter um argumento mais forte, um mecanismo para lutar pela nossa produção. Aí criamos a Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (Coomaru) em 2010, da qual sou presidente.

AR - O que mudou no extravismo da castanha?

João Evangelista Souza - Começamos a articulação dentro das comunidades para criação de uma fábrica de beneficiamento de castanha. A ideia foi aderida ao governo estadual, ao governo federal e conseguimos um projeto para a construção da fábrica. Trouxemos cursos de capacitação aos extrativisas da castanha in natura. Isso trouxe mais valor ao produto e renda para as pessoas da comunidade.

AR - Quantas pessoas trabalham na produção da castanha?

João Evangelista Souza - Esse ano nós conseguimos na colheita de castanha (de fevereiro a maio) uma faixa de 60 extrativistas na coleta de castanha. Dentro da fábrica trabalham 35 famílias (175 pessoas), que também são pagas com o dinheiro do beneficiamento da castanha.

AR - Como é a renda dessas famílias?

João Evangelista Souza - Não podemos dizer que a renda é mensal porque vareia (sic). Chamamos de ciclo. Esse ciclo que nós fizemos agora (em 2014) foi o maior. Foi uma média de 5 a 6 toneladas de castanhas em amêndoas beneficiadas e tratadas. Os 16 quebradores, cada um, nós pagamos um preço de R$ 2,50 o quilo. Eles faturam, isso livre do café, almoço e merenda, de R$ 50 a R$ 60 a diária. Agora quem trabalha no setor de coleta e seleção (catagem), esse ganha R$ 38 e mais um percentual pelo quilo produzido pelo quebrador. Então, dá uma faixa de R$ 40 a R$ 42 a diária deles. O caldereiro ganha R$ 38 a diária, mas como tem os honorários noturno, ela chega a R$ 52 rais. Para a senhora ter uma idéia, nesse últimos 17 dias nós fizemos um pagamento de R$ 21.000 para essas 35 famílias da fábrica.

AR - Quais são os planos para o futuro da castanha na Resex Unini?

João Evangelista Souza - Fazer mais cursos de capacitação para as pessoas. No interior, se a pessoa ficar 15 e 20 dias naquele trabalho repetitivo, aquilo vai dando uma fadiga, a pessoa vai ficando desconcentrada. Tendo duas equipes na coleta, a gente revesa. Parou um, agrega o outro. Na reserva nós temos também a produção ornamental (de peixes), de farinha e tem o manejo do pirarucu. Estamos trabalhando também no movimento da pesca esportiva dentro do rio Unini.

AR - Como é o trabalho dos coletores de castanha dentro da floresta?

João Evangelista Souza - Cada um faz o seu horário porque vareia (sic) a distância (de um castanhal ao outro). Tem coletor que sai de casa às 6 horas da manhã e chega uma hora da tarde em casa. Tem outros que chegam às três hora da tarde em casa. Quando eu coletava castanha na beira (do rio Unini), eu coletava três caixas de castanha pela manhã, e três pela tarde.

Primeiro fazemos um trilha no meio da mata, um caminho. Aí depois, debaixo da castanheira, juntamos os ouriços. Depois é que começamos a quebrar. Quebramos no mato ao menos 300 ouriços. Depois na fábrica começa o processo de medir a castanha. Depois tem a primeira catagem para tirar as que estão com mofo, xôxa. Depois vão para segunda catagem.

Com 15 quilos, 9 quilos as castanhas selecionadas entram no autoclave. Vareia de 3 a 5 minutos, ela é cozida e embalada à vacuo. Não pode passar mais do que isso porque se cozinhar demais, estraga a castanha. Tem que ficar crocante, saborosa.

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