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FSP, Cotidiano, p. 4/5
21/08/2016
Destaque da Rio-16, parque historico no Piaui vive pior crise

Destaque da Rio-16, parque histórico no Piauí vive pior crise
Parque Nacional da Serra da Capivara sofre com falta de recursos; pinturas rupestres têm marcas de balas
Patrimônio mundial da humanidade, área de 130 mil hectares enfrenta abandono e dispensa funcionários

Estelita Hass Carazzai

O guia aponta o dedo para o centro do animal pré-histórico, desenhado com traços vermelhos numa rocha da Serra da Capivara, no semiárido do Piauí. Um buraco branco se abre na figura. "Isso aqui é vandalismo, olha. Bem no meio", diz Carlos Siqueira de Sousa, 44.
Mais adiante, outras pinturas rupestres de 10 mil anos, que integram o maior sítio arqueológico do país, o Parque Nacional da Serra da Capivara, têm marcas de tiros, feitas por caçadores.
O parque, que será um dos destaques da cerimônia de encerramento da Olimpíada neste domingo (21) e é patrimônio mundial da humanidade, tem vivido sua pior crise.
Nesta semana, funcionários foram dispensados por falta de dinheiro. Duas das quatro entradas do parque foram fechadas, e os ingressos de R$ 25 não estão sendo cobrados -por falta de quem o faça. Os seguranças que restaram, terceirizados, não recebem desde abril.
"Desde o ano passado, tem aviso prévio todo mês; é uma situação terrível", diz a arqueóloga Niède Guidon, 83, idealizadora do parque e presidente da fundação que ajuda a mantê-lo em parceria com o governo, a Fumdham.
Em entrevista de 40 minutos à Folha, ela atendeu o telefone três vezes para falar sobre o problema. À cordial pergunta "Tudo bem?", ela responde: "Tudo péssimo". "Estamos com as contas zeradas", dizia a um interlocutor. "Amanhã tem R$ 54 mil em imposto para pagar. É mais do que tem em saldo."
No mês passado, a arqueóloga - que descobriu os sítios arqueológicos na década de 1970 - tirou dinheiro do próprio bolso para pagar funcionários. Dos 100 que tinha há dois anos, sobraram 40.

PRIMEIRO MUNDO
As pinturas rupestres na Serra da Capivara estão espalhadas por mais de mil sítios arqueológicos, numa área de 130 mil hectares - cerca de 85% da cidade de São Paulo.
Há 450 km de estradas dentro do parque, que levam a quatro diferentes circuitos. A água da chuva é aproveitada, tanques foram criados para animais e até a cor das guaritas foi desenvolvida especialmente para o parque.
Apesar do enorme esforço de preservação, hoje o time de conservação dos sítios arqueológicos, que já foi de 20 pessoas, se reduziu a duas. A maior parte das guaritas para vigilância está fechada. "Tínhamos um parque de primeiro mundo, e agora está degradado", diz Guidon.

'DESPROPORCIONAL'
Esta não é a primeira vez que o parque ameaça fechar. As verbas para sua manutenção - oficialmente de responsabilidade do ICMBio (Instituto Chico Mendes), mas compartilhada com a Fumdham - vêm a conta-gotas, de órgãos como Petrobras, Iphan e CNPq, além dos governos estadual e federal.
No início do ano, Guidon entrou na Justiça para obter R$ 4,5 milhões da União - para manter o parque por um ano. O governo destina à administração atual cerca de R$ 300 mil anuais. À Justiça, o ICMBio chegou a argumentar que o pedido era "desproporcional". "Isso totaliza quase o valor destinado a 15 unidades de conservação equivalentes", informou o órgão.
Os advogados disseram que "não há necessidade" de mais verbas à Fumdham, especialmente tendo em vista "outras prioridades em políticas públicas". Guidon admite que nenhum dos outros parques nacionais tem tamanho orçamento. "Mas também não tomam conta de nada. E aí dizem: 'Ah, para que fazer tanta coisa?' A gente fez um parque para um patrimônio da humanidade", afirma.
O Ministério do Meio Ambiente informou que "concentra todos seus esforços" para fortalecer o parque e renovar a parceria com a Fumdham. O órgão diz ter liberado R$ 1 milhão em caráter emergencial e reafirma o compromisso em preservar o local.

Área ainda tem sítios a serem descobertos
Arqueóloga ressalta potencial turístico

Mais de mil sítios arqueológicos já foram descobertos nos 130 mil hectares do Parque Nacional da Serra da Capivara, mas outras centenas ainda podem surgir.
"Aqui, se sair procurando, não dá conta", diz Rogério de Oliveira Paes, funcionário do parque há 16 anos. O lugar abriga a maior concentração de pinturas rupestres do país, uma das maiores do mundo.
Há cinco anos, Paes e um colega dedicaram um mês a prospectar a área. Acharam 110 sítios, todos com dezenas de pinturas rupestres. Outro ex-funcionário achou nove em apenas um dia.
"Mas nunca passei tanta sede na minha vida", diz Carlos Siqueira de Sousa, 44.
A prospecção é um trabalho exaustivo: é preciso se embrenhar a pé, em meio ao sol e à vegetação da caatinga, rumo às rochas onde se abrigavam os homens pré-históricos. Uma expedição simples consome, com facilidade, oito horas na mata. Debaixo do sol, a temperatura chega aos 40 graus.

ORIGEM DO HOMEM
"As pessoas não têm dimensão do significado dessa região", diz a analista ambiental Melina Andrade, funcionária do ICMBio (Instituto Chico Mendes).
Lá, foram encontrados os mais antigos vestígios do homem nas Américas, que fundamentam a teoria de que a ocupação do continente se deu pela África, há mais de 50 mil anos, e não pelo estreito de Bering, entre a Ásia e a América do Norte, há 13 mil anos.
A tese ainda é controvertida. Fósseis encontrados próximos à Pedra Furada foram datados como de 50 mil anos atrás - mas a maioria da comunidade científica ainda questiona a evidência.
Para eles, os pedaços de carvão não faziam parte de uma fogueira construída por mãos humanas, como argumentam os cientistas do parque, mas foram resultado de um incêndio natural.
O grupo de pesquisadores liderados por Niède Guidon, a arqueóloga que descobriu o local na década de 1970, rebate que o fogo natural deixaria marcas em todos os fósseis ao redor, o que não ocorreu.
As pesquisas continuam, com financiamento do CNPq e do governo francês.

Para Guidon, o potencial histórico e cultural da região poderia transformar o parque e seu entorno num grande polo turístico, mas é preciso infraestrutura. O acesso à cidade ainda é feito por estradas com trechos de terra, e o aeroporto, recém-inaugurado após 18 anos de promessas, tem apenas voos nas segundas e quintas, numa aeronave de nove lugares.
"É lugar para turista classe A. Quando eu falo isso em Brasília, dizem que eu não gosto de pobre. Mas não precisa trazer pobre; já temos muitos. Precisa desenvolver essa cidade", afirma Guidon.

FSP, 21/08/2016, Cotidiano, p. 4/5

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