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Cruzeiro Do Sul - http://www.cruzeirodosul.inf.br
24/04/2014
A floresta ameacada

A série exclusiva de reportagens O futuro da Flona, publicada entre domingo e ontem pelo Cruzeiro do Sul, traçou um panorama inquietante a respeito da preservação dos muitos patrimônios -- ecológico, histórico, arqueológico, arquitetônico, cultural, turístico -- contidos nos mais de 5 mil hectares da Floresta Nacional (Flona) de Ipanema e em seu entorno.

Localizada no Morro Araçoiaba, em Iperó (com trechos pequenos de seu território em Araçoiaba da Serra e Capela do Alto, e uma zona de amortecimento que abrange parte dos territórios de nove municípios, entre eles Sorocaba e Votorantim), a Flona é uma das unidades de conservação florestal administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente.

Com profundidade e rigor jornalístico, a série de reportagens assinada pela jornalista Carolina Santana demonstrou que as riquezas da Flona de Ipanema não se limitam à diversidade de espécies animais e vegetais (a unidade contém um dos principais remanescentes de Mata Atlântica do interior de São Paulo), nem às ruínas que atestam as primeiras tentativas de fundição de ferro em terras brasileiras, datadas do século 16, nem às magníficas edificações da Real Fábrica de Ferro de Ipanema, primeira indústria organizada no Brasil depois da chegada da família real portuguesa, a partir de 1810.

Embaixo das paisagens verdes e dos belos prédios de pedra que contam um capítulo importante da história do Brasil, escondem-se jazidas de minérios como a apatita, utilizada na fabricação de fertilizantes e considerada estratégica para o País, já que as reservas são poucas em todo o mundo. Outorgas de exploração concedidas anteriormente à criação da Flona (ocorrida em 1992) habilitam duas gigantes da mineração -- a Vale Fertilizantes e a Holcim -- a explorar minérios em uma área equivalente a 17% da unidade. As concessões são contestadas na Justiça pelo Ministério Público Federal e dependem de licenciamento ambiental, mas nem por isso deixam de preocupar.

A grande dúvida que fica no ar é se os mecanismos de proteção ambiental previstos pela legislação brasileira serão suficientes para proteger a integridade da Flona, num contexto hipotético em que o próprio governo federal -- em última instância, o gestor daquela reserva -- venha a se convencer (se é que não está convencido) de que aqueles minérios são de fato importantes para a economia nacional e precisam ser explorados.
Exemplos recentes de obras "estratégicas" atestam que o governo desenvolve uma relação leonina com a lei e as instituições quando se trata de viabilizar seus objetivos, explorando as brechas legais e, de forma muito pragmática, tratorando as resistências para seguir em frente.

No caso da Flona de Ipanema, a preocupação ganha corpo na medida em que se percebe um quê de asfixia orçamentária, de abandono pela redução dos funcionários e dos prestadores de serviços terceirizados, de relaxamento pela abertura de precedentes impensáveis, como a instalação de um estande de tiro a céu aberto em plena reserva, para treinamento dos servidores do ICMBio. Em que medida o depauperamento e a desvalorização da Flona se relacionam com projetos de exploração de suas jazidas mineiras? É o que os moradores desta região e suas lideranças políticas precisam começar a questionar, antes que os ventos mudem e que as ameaças adquiram contornos mais concretos.

A preservação da Flona de Ipanema afigura-se como um desafio -- talvez o primeiro grande desafio -- para os municípios integrantes da Região Administrativa de Sorocaba, em fase de formação. Proteger aquele pedaço de chão da exploração predatória é um compromisso histórico da atual geração de homens públicos. A atitude de cada um diante do assunto dará a medida de sua grandeza ou de sua mediocridade.

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