Especulação imobiliária mata jovem trindadeiro de 23 anos

Jaison Caique Sampaio de 23 anos, morreu no último dia 2 de junho, cruelmente assassinado, em sua própria residência, por um policial militar de folga a serviço da T.D.T, Trindade Desenvolvimento Territorial. A família do jovem caiçara Trindadeiro, mora em área destinada a lavoura da comunidade e são os donos legítimos da terra.

Os funcionários da companhia envolvidos no crime, dois sargentos da polícia militar, Udson de Oliveira e Claudio Antônio Fonseca, invadiram sem qualquer mandado judicial a residência da família e após o crime se entregaram à delegacia alegando legítima defesa. Segundo informações, os policiais já vinham ameaçando a família há algum tempo dizendo que a terra em questão fazia parte do grupo.

O irmão da vítima e única testemunha, estava no local e também sofreu a tentativa de assassinato. Segundo seu depoimento, os jovens estavam na propriedade da família quando foram abordados pelos invasores que ordenaram que eles deixassem a própria casa, pois o imóvel seria derrubado. Ao questionarem a falta de um mandado judicial, os criminosos agrediram o irmão da vítima com um tapa e dispararam tiros em direção aos irmãos. Dois disparos atingiram Jaison, que faleceu no Hospital Municipal de Paraty.

A comunidade está situada dentro de duas unidades de conservação, o Parque Nacional da Serra de Bocaina e Área de Proteção Ambiental do Cairuçu. Após o acontecimento, os Trindadeiros realizam um movimento para ocupar as áreas da APA, que supostamente seriam da empresa, para que sejam desenvolvidas atividades de esporte, lazer e de cunho social e cultural, conforme garante a Lei Municipal 1828/2011.

A família da vítima, além de toda comunidade teme por represarias à única testemunha do crime e clama por apoio e proteção legal das autoridades competentes.

Histórico:

Até o final dos anos sessenta o acesso ao litoral norte paulista terminava em Ubatuba e pelo lado fluminense em Angra. Este longo território entre essas duas cidades – com Paraty à meia distância entre elas - permanecia inacessível, quase intocado, cinco séculos depois da descoberta do Brasil.

Uma característica se destacava nesse trecho virgem do litoral brasileiro: a beleza cênica proporcionada pelo encontro da serra com o oceano, das matas centenárias, dos recortes acidentados das pequenas praias em forma de meia-lua. Para muitos que conheceram o local à época, este era com certeza o mais belo trecho do litoral brasileiro.

Grandes empresas nacionais e internacionais, através de seus prepostos políticos, souberam com antecedência do projeto de abertura da construção da rodovia BR 101, conhecida como Rio Santos, que passa pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. E detectaram de imediato o grande potencial turístico da região. Na calada da noite foram se apossando das terras à beira-mar, para que, quando a estrada estivesse pronta, pudessem lançar sofisticados projetos turísticos de alto valor agregado. Um “problema” se colocava, no entanto, à frente dos interesses da especulação imobiliária: a existência daquelas comunidades caiçaras que ocupavam todas as praias habitáveis.

Desde a década de 70, os Trindadeiros lutam pela permanência em seu território tradicional. Na época, a companhia Paraty Desenvolvimento Turístico, hoje TDT, uma união de duas multinacionais, a Brascan e a Adela (Agência de Desenvolvimento na América Latina), constituída por 280 dos mais poderosos grupos empresariais do mundo, com sede em Luxemburgo, se dizia dona das terras em Trindade, no litoral sul fluminense.

A Adela tentou por nove anos incisivamente ocupar a área, chegando a manter 60 homens armados no local e entrando com diversas ações de reintegração de posse no fórum de Paraty. Com sete praias paradisíacas, localizada a 20 km de Paraty, a vila de Trindade por pouco não se transformou em condomínio de luxo. Nessa época, os Trindadeiros sofreram diversas agressões físicas, além de ver a estrada de acesso ao lugarejo bloqueada por jagunços, suas plantações e casas de pau-a-pique serem destruídas e até estupros praticados a duas professoras.

Durante os anos da luta, a comunidade de Trindade, que chegou a ser constituída de 120 famílias e em certo momento se reduziu para apenas 23, recebeu ajuda da Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro, grupo que surgiu em 1978, quando jovens paulistas e cariocas que frequentavam o local e presenciaram as violências cometidas contra os caiçaras, decidiu unir-se aos moradores. Com a união, o conflito de terras em Trindade ganhou grande repercussão e conquistou apoio jurídico do importante advogado Sobral Pinto, tornando o conflito conhecido internacionalmente.

Décadas depois, a luta continua. A empresa, que agora se chama T.D.T, Trindade Desenvolvimento Territorial, ainda hoje tem a seus serviços funcionários que coagem a comunidade constantemente.

Desde a chegada desses grupos mal-intencionados, a comunidade de Trindade não sabe quem são os representantes dessa empresa e não reconhece e nem legitima a TDT em seu território. Convivem constantemente com seguranças da empresa que fariam parte de uma milícia armada e que busca expulsar os Trindadeiros do território onde vivem por mais de quatro gerações, passando um sentimento de insegurança e medo a comunidade.

Esta não é uma realidade só na Trindade, mas de várias comunidades tradicionais que tem seus territórios tomados por especulação imobiliária, grileiros e políticas ambientais que não promovem a justiça socioambiental.

Fonte: Comunidade de Trindade

Para pedir justiça e lutar pelo direito das populações tradicionais, a comunidade de Trindade e a AMOT, Associação de Moradores de Trindade, irá realizar nesta segunda-feira, 6 de junho, às 9 horas, uma passeata.

O protesto partirá do estacionamento da secretaria de promoção social e vigilância e seguirá para a delegacia, passando pela Câmara Municipal de Paraty, Fórum e prefeitura.

*Associação de Moradores de Trindade (AMOT)*
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