Biodiversidade

O que é biodiversidade?

O termo ‘biodiversidade’ foi cunhado a partir da expressão ‘diversidade biológica’, mas transcende o seu significado original. No começo da década de 1980, ‘diversidade biológica’ era sinônimo de riqueza de espécies; em 1982, o termo adquiriu o sentido de diversidade genética e riqueza de espécies e, por fim, em 1986, com a contração da expressão, expandiu-se para abrigar além da diversidade genética e da diversidade de espécies, a diversidade ecológica.

Em 1986, no 1º Fórum Americano sobre diversidade biológica, organizado pelo Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA (National Research Council, NRC), Wilson, substitui a expressão “Diversidade Biológica” por “Biodiversidade”, e sua publicação1 contribui para a popularidade do termo, sendo adotado com rapidez no campo científico de forma quase contínua2, além de ser incorporada por ambientalistas, líderes políticos e cidadãos no mundo todo.

Em 1992, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), popularmente conhecida como a Convenção da Biodiversidade, define, em seu segundo artigo, o termo ‘diversidade biológica’ como a “variabilidade entre organismos vivos de todas as origens compreendendo os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas.” Apesar das controvérsias em torno dessa definição, a CDB consolidou uma forma de ver a biodiversidade e contribuiu para introjetá-la na pauta política de seus mais de 180 países signatários.

A biodiversidade entendida como na CDB, trata, portanto, da variabilidade genética, da diversidade de espécies, de ecossistemas e de paisagens. Além disso, trata também das relações entre esses componentes da biodiversidade, ou seja, sua função e sua estrutura.

Assim, é costume adotar-se2 a diversidade intraespecífica (dentro da mesma espécie) abrangendo toda a variação entre indivíduos de uma população, bem como entre populações espacialmente distintas da mesma espécie. Na prática, essa diversidade tem sido tratada como equivalente à diversidade genética, embora possa incluir diversidade morfológica, de comportamento, etc, sem ater-se estritamente à base genética de tais diferenças.

A diversidade interespecífica (entre espécies), por sua vez, corresponde ao que se chama de diversidade de espécies, ou seja, a variedade de espécies existente em um dado ambiente ou região definida.

Já a diversidade de ecossistemas, tem sido tratada como relacionada à diversidade de fisionomias de vegetação, de paisagem ou de biomas. Entretanto, ainda que ecossistemas sejam essencialmente sistemas funcionais, caracterizados por sua dinâmica, usar a dinâmica como base para avaliar, inventariar ou monitorar a diversidade de ecossistemas é pouco praticável, embora não impossível.

Veja no quadro abaixo algumas outras definições de biodiversidade.

Definições de biodiversidade

No início da década de 1990, vários pesquisadores foram entrevistados por David Takacs, que, entre outros resultados, compilou uma série de definições do termo “biodiversidade”3. Nessas definições é possível identificar, pelo menos, duas grandes correntes: a que aposta na diversidade de espécies e a que considera os processos biológicos, de alguma forma, como parte da biodiversidade. Seguem alguns exemplos:

  • “A variedade de populações geneticamente distintas e espécies de plantas, animais e microorganismos com os quais o homem compartilha a terra e a variedade de ecossistemas dos quais eles são partes integrantes”. Paul Ehrlich, 1992.
  • “Biodiversidade é o número total de linhagens genéticas na terra”. Thomas Eisner, 1992.
  • “Biodiversidade é a soma das espécies da terra incluindo todas suas interações e variações com seu ambiente biótico e abiótico no espaço e no tempo”. Terry Erwin, 1991
  • “A dimensão da diferença nos múltiplos níveis de organização biológica, considerando todas as diferentes entidades e todos os diferentes processos”. Donald Falk, 1992.
  • “Total de genes, populações, espécies e o conjunto de interações que eles manifestam”. Daniel Janzen, 1992.
  • “Variação, variabilidade ou variedade de organismos vivos, o que inclui variação intraespecífica e os níveis de comunidades, ecossistemas e paisagens”. K.C. Kim, 1992.
  • “Diversidade de todos os níveis de organização”. Thomas Lovejoy, 1992
  • “A diversidade biótica total indicada como o número de espécies e a diversidade genética que abrangem”. S.J. McNaughton, 1992.
  • “Variedade da vida e seus processos”. Reed Noss, 1992.
  • “Diversidade de espécies que existem num determinado ecossistema”. David Pimentel, 1992.
  • “A soma total de plantas, animais, fungos e microorganismos no mundo, incluindo sua diversidade genética e o envolvimento de todos em comunidades e ecossistemas”. Peter Raven, 1992.
  • “É a vida em todas suas dimensões, riqueza e manifestações, não apenas no nível de indivíduos e espécies, mas também no nível de agregações, comunidades, etc.” Michael Soulé, 1992.
  • “Variedade da vida ao longo de todos os níveis de organização, desde diversidade gênica em populações, diversidade de espécies, que devem ser encaradas como a unidade pivotal de classificação, até diversidade de ecossistemas”. Edward O. Wilson, 1992.

Os sistemas biológicos não se resumem apenas à mera presença dos organismos, seu funcionamento depende dos organismos e das interações entre eles. Por isso, foi proposto4 que a biodiversidade possui três componentes fundamentais através dos quais pode ser aferida: a composição, a estrutura e a função. A composição diz respeito a que elementos constituem a unidade biológica; a estrutura, como eles se organizam fisicamente; e a função versa sobre o fato de processos ecológicos ou evolutivos manterem ou serem produzidos pela unidade biológica considerada. Assim, a biodiversidade abarca os processos que geram e mantêm as espécies, a variabilidade genética, a diversidade de populações e comunidades, a multiplicidade de ecossistemas e paisagens, bem como todas suas relações com o meio físico e entre si.

Além do número de espécies, outros aspectos da biodiversidade podem ser representados pelo número de níveis tróficos presentes, o número de guildas, a variedade de ciclos de vida e a diversidade de recursos biológicos, devendo ser considerados quando busca-se uma caracterização ecológica e ambiental. Algumas espécies podem desempenhar um papel importante para a riqueza total de espécies, tais como polinizadores, simbiontes mutualistas, patógenos reguladores da população e agentes de controle biológico com efeitos sobre a biodiversidade local.

Assim, mostra-se sensato o argumento de cientistas e pesquisadores de que a conservação de genes, espécies e comunidades isolados não é suficiente para manter todos os fenômenos biológicos desejados, pois alguns resultam, por exemplo, das interações únicas entre determinados componentes dos sistemas.

Para que diversidade genética?

Nos primórdios do século XIX, a batata era um dos produtos mais cultivado na Europa continental e no Oeste da Inglaterra. Na Irlanda, a batata se converteu na base da economia e da dieta alimentar, principalmente para os camponeses, que não comiam nada além de batatas durante o longo inverno, que se apresentavam como um alimento bem equilibrado nutricionalmente. Entretanto, em 1845, uma doença atacou o plantio, destruindo-o completamente e causando uma fome sem precedentes.

Essa doença das batatas na Irlanda ilustra um dilema constante da agricultura, que por sua vez nos remete à questão da variabilidade genética. Para produzir a ‘melhor planta’, que proporcionará a máxima produção, agricultores e cientistas cruzam e selecionam as plantas durante gerações até obter a combinação certa de algumas características. Em seguida, desenvolvem todo o plantio a partir dessa forma melhorada; ou seja, todas as plantas possuem um único progenitor, são geneticamente uniformes. Troca-se a variabilidade genética pelo item alimentar perfeito. Entretanto, a falta de diversidade genética torna a variedade única muito suscetível a doenças: se algum fungo, vírus ou bactéria atacar as plantas com sucesso, pode devastar toda a colheita, uma vez que as plantas são, todas, geneticamente iguais e apresentam as mesmas condições de defesa e adaptação.

Os irlandeses cultivavam suas batatas a partir de uma ‘planta melhor’ única. Com o estabelecimento da doença, causada por um fungo, perderam não apenas toda a colheita de 1845, como também a possibilidade de reagir em seguida, plantando variedades resistentes. Nas populações naturais, ao contrário, a diversidade genética dos indivíduos assegura que alguns serão imunes à doença e que parte da colheita sobreviverá. Esses sobreviventes darão origem às plantas do ano subsequente que serão, por consequência, resistentes àquela doença.

Histórias semelhantes podem ser contadas para muitos dos principais produtos agrícolas e a salvação da lavoura, na maior parte dos casos, está na diversidade genética encontrada nas variedades selvagens. Além dessas variedades selvagens serem encontradas apenas em seu ambiente natural, muitas vezes espaços especialmente protegidos, elas necessitam continuar vivendo nesses ambientes para que permaneçam como um estoque genético potencial, fator de prevenção para futuras doenças. É o fato de continuar a viver no ambiente natural que permite ao organismo se modificar ao longo do tempo e se manter adaptado às condições ambientais que vão se alterando continuamente.

Fragilidades como essa não ocorrem apenas em relação a pragas naturais como no caso das batatas e os fungos, mas também em relação a alterações climáticas. Imagine que há uma planta adaptada a condições específicas de seu ambiente, como a um regime de chuva e a um determinado intervalo de temperatura e que é repentinamente exposta a outras condições: a temperatura sobe e as chuvas escasseiam, provocando secas mais prolongadas. Nossa espécie hipotética sofrerá bastante e, certamente, alguns indivíduos menos resistentes morrerão. Não obstante, graças à variabilidade genética entre os seus indivíduos, há alguns mais resistentes e que são capazes de sobreviver nessas novas condições ambientais. Estes se reproduzirão e gerarão novas plantas, adaptadas às novas condições, permitindo que a espécie sobreviva nesse local. No caso das mudanças climáticas, essa diversidade é essencial e pode significar a extinção ou não de uma espécie.

O que a Rainha de Copas tem a ver com biodiversidade?

Quando Alice, perdida no País das Maravilhas, encontra a rainha de Copas e deseja lhe fazer algumas perguntas, percebe que, para se manter ao seu lado, teria que correr continuamente. Mas por mais que corresse, permanecia no mesmo lugar, e essa era a única maneira possível de conversar com a rainha... A diversidade genética possui um papel semelhante, é ela que permite aos seres vivos continuarem “correndo” para permanecerem no mesmo lugar e sobreviverem. Isto é, como o ambiente em que vivemos é dinâmico, os seres vivos precisam mudar constantemente para permanecerem adaptados às condições do meio e, assim, sobreviverem.

A importância da biodiversidade não se restringe ao valor intrínseco das espécies, é só olhar em volta e para dentro para perceber que muito do que nos é necessário e desfrutamos provêm da natureza: a madeira da mesa onde estamos trabalhando; o papel onde escrevemos; o alimento; a roupa que vestimos; a diversão nos parques, cachoeiras, praias e muitas outras. Da mesma forma, há outros processos que também são essenciais para nossa sobrevivência, são proporcionados pela natureza e não percebemos com tanta facilidade: regulação atmosférica, ciclagem de nutrientes, conservação dos solos, qualidade da água, fotossíntese, decomposição, etc. São bens e serviços obtidos direta e indiretamente dos ecossistemas, que proporcionam condições para a manutenção da nossa espécie e são conhecidos como serviços ecossistêmicos.

Serviços ecossistêmicos

Tais bens e serviços são classificados em quatro grupos, segundo a MEA (Millenium Ecosystem Assessment5): provisão, regulação, suporte e culturais (Figura abaixo). Essa classificação é a mais utilizada, embora algumas alterações tenham sido propostas. Os serviços de provisão englobam os produtos obtidos dos ecossistemas e que são oferecidos diretamente à sociedade, como alimentos e fibras naturais, combustíveis, água, recursos genéticos, entre outros. Os serviços de regulação propiciam os benefícios obtidos pela sociedade a partir da regulação natural dos processos ecossistêmicos, tais como regulação do clima; manutenção da qualidade do ar e controle da poluição, por meio da regulação da composição dos gases atmosféricos; regulação dos fluxos de água (ciclo hidrológico) e controle de enchentes, evitando inundações e contribuindo para a recarga dos aquíferos; controle da erosão; purificação da água; redução da incidência de pragas e doenças através de controle biológico, regulação de danos naturais e polinização de plantas agrícolas e silvestres.

Figura

Já os serviços de suporte concedem as condições necessárias para que os demais serviços possam ser disponibilizados à sociedade. Sendo assim, os benefícios são, geralmente, indiretos e se manifestam à longo prazo, como a formação e a manutenção da fertilidade do solo, a produção de oxigênio, a ciclagem de nutrientes e a produção primária. Além disso, englobam a biodiversidade (genética e de espécies), encontrada em ambientes naturais constituindo o suporte a todo o funcionamento dos ecossistemas, dando-lhes resiliência às mudanças externas. Nos demais serviços, os benefícios são diretos e, normalmente, ocorrem em prazos menores. Por exemplo, a sociedade não utiliza diretamente o serviço de formação do solo, embora alterações neste afetem indiretamente o bem-estar, porque alteram o fluxo do serviço de produção. Serviços culturais, por fim, correspondem aos benefícios não materiais obtidos dos ecossistemas, que contribuem para o bem-estar da sociedade, como enriquecimento espiritual e cultural, desenvolvimento cognitivo, reflexão sobre os processos naturais, oportunidades de lazer, ecoturismo e recreação.

Em 2018 foi lançado o Sumário para Tomadores de Decisão6 do 1º Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade & Serviços Ecossistêmicos, documento elaborado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, na sigla em inglês), apoiada pelo Programa BIOTA-FAPESP. Os pesquisadores avaliaram que apesar de no Brasil a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos serem percebidos como obstáculos ao desenvolvimento econômico, são elementos fundamentais para o enfrentamento de crises socioeconômicas e ambientais. Isto por trazerem novas oportunidades de desenvolvimento, por exemplo, nas áreas de turismo, cosméticos, fármacos e alimentícia. A Plataforma Brasileira opera no âmbito da Plataforma Internacional, criada em 2012 por mais de 100 governos como um mecanismo para fornecer informação científica em resposta aos pedidos dos tomadores de decisão, sob o guarda-chuva de quatro entidades das Nações Unidas: PNUMA, FAO, PNUD e UNESCO, e é administrada pelo PNUMA. A IPBES envolve cientistas e outros detentores de conhecimento ao redor do mundo para analisar e avaliar informações científicas e técnicas relevantes, produzidas mundialmente, para a compreensão da biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

Sendo assim, a abordagem de serviços ecossistêmicos veio na perspectiva de aproximar a natureza da abordagem econômica, de modo a valorar os bens e serviços providos pelo meio ambiente ao ser humano. A concepção consolidou-se e emergiram classificações dos bens e serviços, mas a mensagem importante dessa conceituação é que nossa saúde, alimentação e segurança dependem direta e indiretamente da biodiversidade. De medicamentos à produção de comida, a biodiversidade é essencial ao bem estar humano. Compreender essa relação e interdependência é importante para tomadas de decisão diante do cenário de pressões e desafios ambientais, que comprometem funções e serviços ecossistêmicos e, portanto, impactam também a vida humana. Leia mais sobre a temática no Depoimento de Nurit Bensusan.

O que conhecemos sobre ela?

A biodiversidade é, portanto, um aspecto estimado, que influi direta e indiretamente na vida humana e que envolve variabilidade genética, de espécies, ecossistemas e paisagens. Apesar disso, pouco conhecemos efetivamente sobre a biodiversidade.

Quantas espécies há na Terra? Quantas já houveram? Tais questões ainda são enigmáticas, inclusive pois, estimativas muitas vezes partem de pressupostos altamente controversos. Na realidade, frente à pergunta ‘o que conhecemos da biodiversidade’, uma resposta melhor seria ‘não sabemos quanto representa exatamente o que conhecemos’.

Se tratarmos exclusivamente do número de espécies existente no planeta, há apostas que variam de cerca de 2 milhões até 6 bilhões. A partir dos anos 1980, as pesquisas com besouros nas florestas tropicais elevaram as expectativas. Hoje, o acesso a áreas antes não pesquisadas como os pólos e as profundezas do mar, também tem feito as estimativas subirem.

A maior parte das espécies que já foi descrita pelo ser humano, ou seja, identificada e nomeada, é constituída de insetos. Das cerca de 1,9 milhões de espécies vivas já descritas até 2018, cerca de metade são insetos, incluindo 300 mil besouros, e apenas aproximadamente cinco mil são mamíferos, como nós.

Em países tropicais com grande diversidade, como o Brasil, há ainda, a questão da carência de dados, não só devido à riqueza (número de espécies) e abundância (número de indivíduos por espécie), mas também devido ao reduzido número de especialistas e regiões de difícil acesso. Estima-se que a biota brasileira corresponda a aproximadamente 13% da biota mundial, e o conhecimento dessas espécies é fundamental para se ter sucesso na conservação e no uso sustentável desse nosso rico patrimônio. Apenas entre os anos de 1978 a 1995, foram descritas no Brasil 7.302 espécies de animais sendo 69% insetos (na verdade, essa estimativa é para um grupo taxonômico denominado metazoário, que congrega a grande parte dos animais, excluindo-se apenas um pequeno grupo pouco conhecido a não ser por especialistas)7 e 8.

A tabela abaixo apresenta o número de espécies conhecidas registradas no Brasil e no mundo9. Houve um agrupamento com certa liberdade taxonômica para melhor compreensão por parte dos leitores não especialistas, mas as tabelas originais com seus detalhamentos pode ser acessada integralmente diretamente nas publicações.

Grupo Espécies do Brasil Espécies no mundo
Vírus 310 - 410 3.600
Bactérias 800 - 900 4.300
Fungos 13.090 - 14.510 98.998
Protozoários 7.650 - 10.320 76.100 - 81.300
Plantas 43.020 - 49.520 310.129
Animais total 103.780 - 136.990 1.424.153
*Invertebrados 96.660 - 129.840 1.359.365
*Peixes 3.420 31.153
*Anfíbios 775 6.515
*Répteis 633 8.734
*Aves 1.696 9.990
*Mamíferos 541 5.487
TOTAL GERAL 168.640 - 212.650 1.800.000 - 2.000.000

Acredita-se que muitas das espécies que existem e ainda não foram descritas sejam espécies pequenas, pouco coloridas, com distribuição geográfica restrita e ameaçadas de extinção, o que dificulta seu reconhecimento e catalogação. Além disso, mais do que saber quais são as espécies, é necessário compreender onde estão, sua abundância e seus atributos funcionais e funções, além de seu papel ecológico, e elaborar políticas de conservação e manejo.

Recortes Ecológicos

PAISAGEM

A primeira referência à palavra “paisagem” aparece por volta de 1000 a.C., no "Livro dos Salmos”, em que apresenta conotação visual e estética. Tal concepção foi adotada em seguida pela literatura e pelas artes em geral, principalmente pela pintura na segunda metade do século XVIII. Atualmente a paisagem é definida, segundo dicionário Aurélio, como “um espaço de terreno que se abrange num lance de vista". A palavra “paisagem”10 permeia, portanto, as artes, geografia, geologia, arquitetura e ecologia e, possui, dessa forma, conotações diversas em função do contexto e da pessoa que a usa.

A ecologia de paisagens é uma área de conhecimento dentro da ecologia, marcada pela integração de duas principais abordagens: uma geográfica, que privilegia o estudo da influência do ser humano sobre a paisagem e a gestão do território; e outra ecológica, que enfatiza a importância do contexto espacial sobre os processos ecológicos e a importância destas relações em termos de conservação biológica. A ecologia de paisagens seria, portanto, uma combinação de uma análise espacial da geografia com um estudo funcional da ecologia.

Essa abordagem promove a integração necessária para a aplicação prática, uma vez que se propõe encarar os ambientes como mosaicos antropizados, na escala na qual o ser humano está modificando o seu ambiente. Na “abordagem geográfica”, procura-se entender as modificações estruturais, e, portanto, funcionais, trazidas pelo homem no mosaico como um todo, incorporando de forma explícita toda a complexidade das inter-relações espaciais de seus componentes, tanto naturais quanto culturais. Na “abordagem ecológica”, situa-se na escala adequada para responder aos principais problemas ambientais, tanto relacionados à fragmentação de habitats quanto ao uso inadequado dos solos e da água.

Para compatibilizar uso das terras e sustentabilidade ambiental, social e econômica, é necessário planejar a ocupação e a conservação da paisagem como um todo. Por exemplo, a proteção de apenas um fragmento de vegetação ou um trecho do rio é insuficiente se houver comprometimento no entorno do fragmento ou em suas cabeceiras. A espécie humana está na origem de muitos danos ambientais, mas é também parte das soluções.

Uma vez que o conflito em si não é a humanidade, mas modelos de desenvolvimento predatórios que buscam subjulgar processos sistêmicos e revertê-los a produtos. Ao lidar com a paisagem como um todo, considerando as interações espaciais entre unidades culturais e naturais, incluindo-nos assim a seu sistema de análise, a ecologia de paisagens adota uma perspectiva adequada para a proposição de soluções a problemas ambientais.

Fragmentação

Fragmentação é o nome dado ao o processo no qual, após dado distúrbio, uma grande extensão de habitat é subdividida em fragmentos menores, que apresentam menor área total do que o habitat inicial e estão isolados uns dos outros por uma matriz de habitat diferente da original11. Tal processo é reflexo da retirada de vegetação nativa e ocupação do território por práticas produtivas e de convivência (manchas urbanas). Trata-se de uma das maiores causas mundiais de perda de biodiversidade.

A fragmentação de habitat introduz uma quebra na continuidade da distribuição da vegetação original, reduz o habitat disponível aos organismos e acrescenta bordas a uma paisagem até então contínua. Este processo pode implicar em perdas de biodiversidade e mudanças na distribuição e abundância dos organismos.

Fragmentos podem diferir quanto à sua forma, tamanho, micro-clima, regime de luz, solos, nível de isolamento e tipo de uso da terra. Assim, uma paisagem contínua, a partir do processo de fragmentação, torna-se uma paisagem com elementos antes inexistentes, e as características desses elementos e sua forma de interação promovem respostas bióticas e abióticas que alteram a composição e a estrutura da comunidade, bem como o padrão espacial da paisagem.

As mudanças drásticas na geometria e atributos da paisagem alteram o microclima do habitat, expondo organismos à insolação, ventos e dessecação12, alterando a composição e estrutura da comunidade, uma vez que algumas espécies são extremamente dependentes de condições abióticas ideais para germinação, crescimento, estabelecimento, florescimento e polinização. A fragmentação influencia também as interações entre plantas e animais, consequentemente afetando a densidade populacional de polinizadores e dispersores e a demografia e o recrutamento das plantas13.

Em uma paisagem fragmentada são reconhecidos três componentes: a matriz, componente mais extenso da paisagem, altamente conectado, que controla a dinâmica regional14 – por exemplo, uma plantação de soja, pinheiro ou pasto, ou mesmo a mancha urbana, no caso de cidades; fragmentos, remanescentes do habitat original, reorganizado espacialmente em manchas menores e de menor área total, que apresentam certo grau de isolamento entre si; e os corredores, que são unidades que diferem da matriz e conectam os fragmentos15.

A composição e permeabilidade da matriz são variáveis que alteram a conectividade da paisagem, sendo a conectividade a capacidade da paisagem de facilitar os fluxos biológicos, ou seja, a continuidade espacial do habitat original14. A conectividade depende da proporção da paisagem que os fragmentos ocupam, característica diretamente relacionada ao tamanho dos fragmentos e ao grau de isolamento entre eles, sejam barreiras espaciais ou ecológicas. Fragmentos maiores e com maior diversidade de habitats teriam mais condições de manter os processos ecológicos e um maior número de espécies e populações viáveis. Está também intimamente relacionada à existência de corredores16, que além da capacidade de conectar fragmentos, facilitando a sobrevivência dos organismos durante seu fluxo entre as manchas, podem apresentar as condições necessárias de habitat temporário ou permanente para algumas populações.

Portanto, em uma paisagem cuja matriz possui baixa permeabilidade, a mobilidade dos organismos e sua consequente dispersão e colonização de novos fragmentos é comprometida. O que pode ser ilustrado por um remanescente de mata incrustado no meio urbano e na probabilidade de atropelamento da fauna. Uma matriz mais permeável seria um ambiente cujas alterações não tivessem sido tão drásticas e se aproximasse do ambiente original.

ECOSSISTEMAS LITORÂNEOS

Considerando a grande extensão costeira do Brasil, os ecossistemas costeiro e marinho correspondem a um vasto e biodiverso recorte ecológico. Eles ocupam aproximadamente 4,5 milhões de km2 do território sob jurisdição do Brasil. Representa mais que um conceito geopolítico, abriga e abrange extensões de uma paisagem e de vidas biológicas e humanas diversas.

Ao longo da costa litorânea e mares do Brasil, onde vive quase um quarto da população brasileira - cerca de 50 milhões de habitantes - estão comunidades pesqueiras, extrativistas, comunidades tradicionais de pesca e outros povos do mar17 e 18, dentre os quais se encontram aproximadamente 800 mil pescadores e pescadoras, de dois milhões de habitantes responsáveis por 55% da produção pesqueira nacional18. Esses habitantes tradicionais de nossa costa resguardam uma herança cultural indígena, africana e portuguesa, presente entre as mais variadas técnicas de captura, como timbó, espinhel, tarrafa e processamento do pescado, nas habitações, na música (a viola, o pandeiro, a caixa e o acordeão) e nas festas (como o fandango), marcados pelo encontro dessas culturas, que povoa o universo do caiçara, jangadeiro, o catador de caranguejo e outros povos do mar.

A Zona Costeira é um patrimônio nacional, conforme o artigo 225 da Constituição Federal do Brasil de 1988, e se estende por mais de 8.500 km de norte ao sul do país, cujas terras estão voltadas para o Oceano Atlântico. A área da Zona Costeira na parte terrestre é variável e abrange 17 Estados e mais de 400 Municípios. Inclui ainda o mar territorial, que correspondente à faixa marinha de 12 milhas náuticas, ampliando a área para 514 mil km². A Zona Marinha tem início na Zona Costeira e abarca a plataforma continental marinha e a ZEE (Zona Econômica Exclusiva), que no caso do Brasil corresponde a 200 milhas náuticas da costa19,20,21.

A zona costeira compreende regiões de transição ecológica com a importante função de promover a conexão e trocas genéticas entre os ecossistemas terrestres e marinhos, além de barreira contra inundações, intrusão salina e erosão19. É constituída por ecossistemas que constituem as restingas, as dunas, os cordões arenosos, os estuários e deltas, as lagoas costeiras, os manguezais, as marismas, os costões e fundos rochosos, os recifes de coral e de arenito, os bancos de algas calcárias, as plataformas arenosas e as ilhas oceânicas (como Fernando de Noronha que resultou do vulcanismo e soergueram desvinculadas do continente); ou de relevo sedimentar com baixa altitude, como a Ilha Comprida no litoral de São Paulo, que é um segmento de restinga isolado pelo mar, entre outras19.

Essa complexidade e diversidade de ambientes são de extrema importância para a sustentação de toda a vida biológica marinha e grande produtividade, graças à grande concentração de nutrientes que chegam transportados pelos rios e lençóis de água subterrâneos e pelo aporte de nutrientes de seus mais variados ecossistemas. Devido à ampla diversidade e importância dessa integração entre sistemas terrestres e marítimos, a zona costeira requer maior preocupação quanto à integridade e equilíbrio ambiental por servir a uma diversidade de situações, desde a exploração intensiva de seus recursos naturais à instalação de uma complexidade de indústrias, portos, ambientes de lazer e turismo e à própria ocupação humana.

A biodiversidade marinha é ainda pouco conhecida pela ciência. Esse ambiente por estar mais distante da costa e devido às grandes profundidades, correntes marítimas e tempestades, é menos suscetível a contato humano direto. No entanto, é atingido pela atividade de sobrepesca e intensa extração de petróleo, além de ser o depositário dos mais variados lixos e descargas de poluentes químicos provenientes dos continentes.

Poucas são ainda as unidades de conservação que protegem esse mosaico ambiental que compreende os ecossistemas da Zona Costeira e Marinha. A necessidade de ampliar sua proteção reside também na importância reconhecida internacionalmente dos ecossistemas marinhos na mitigação dos efeitos causados pelas mudanças climáticas globais, pela capacidade de absorver grandes quantidades de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera.

Em 2017, as zonas protegidas abarcam 13,2% do meio marinho compreendido entre a jurisdição nacional (até 200 milhas marinhas da costa), 0,25% do meio marinho fora da jurisdição nacional e 5,3% dos oceanos do mundo. São 4.977 km2 de unidades de proteção integral e 50.739 km2 de unidades de uso sustentável, que representam 1,57% do total desses biomas16.

O Brasil assinou e ratificou (1988) a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), em vigor desde 1994, na qual possui direitos exclusivos sobre o uso e exploração dos recursos e do "mar territorial" (que banha os países signatários). Nessa convenção, os países acordaram em estabelecer mais medidas de gestão e conservação dos recursos vivos na ZEE. Ainda assim, é grande a preocupação com as pressões humanas sobre esse ambiente, que aumenta com a expansão da produção de petróleo a partir do pré-sal e da infraestrutura portuária e a falta de sanções mais severas para o despejo inadequado de lixos domésticos e industriais. Além disso, o turismo, se não bem planejado, pode exercer forte pressão sobre os recursos e funções do ecossistema marinho e litorâneo, assim como a carcinicultura (criação de camarões em cativeiro, em sua maioria exóticos), que tem também envolvido conflitos socioambientais neste ambiente.

Em parte favorecida pela riqueza e grande concentração de nutrientes que chega à zona costeiro marinha, a carcinicultura, entretanto, muitas vezes causa, além de danos ambientais, a expropriação de populações tradicionais e locais de seus territórios. No mundo, cerca de 50% da destruição dos manguezais têm sido atribuídos à implantação dessa atividade22. A sobrepesca também aparece como um fator de intensa pressão: a médio prazo reduz a produção de alimentos, impacta o funcionamento dos ecossistemas e reduz a biodiversidade. Pesquisas demonstram que as populações de peixes marinhos diminuíram em todo o mundo, de 90%, em 1974, para 68,6%, em 2013. Com administração eficaz e recursos suficientes, as zonas marinhas protegidas são mecanismos importantes para salvaguardar os oceanos, em escala mundial.

CAVERNAS

A diversidade também contempla variação de formações, como é o caso das formações espeleológicas, conhecidas como cavernas. O Patrimônio espeleológico brasileiro é extremamente rico e encantador, com uma grande diversidade em sua geomorfologia e biota associada. Segundo a base de dados do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas23 (CECAV) vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Brasil possuía, em dezembro de 2018, 18.012 mil cavernas mapeadas no Cadastro Nacional de Informações Espeleológicas - CANIE. Entretanto, sabe-se que esse dado ainda é subestimado, e que esse número representa apenas as cavernas já prospectadas e com dados publicados, os quais foram sistematizados, georreferenciadas e analisados pelo CECAV.

O ambiente cavernícola apresenta características muito peculiares quando comparado ao ambiente da superfície terrestre. Dentre estas podemos citar a ausência permanente de luz e a tendência na estabilidade das condições ambientais, tais como temperatura e umidade24 e a grande dependência de uma fonte exterior de recurso alimentar.

A ausência de luz no interior das cavernas impossibilita a manutenção de organismos fotossintetizantes, como plantas ou algas Sendo assim, o deslocamento desse recurso para o interior das cavernas é realizado pelos cursos d’água, temporários ou perenes, ou águas que percolam através de eventuais aberturas pelo teto e paredes e restos de animais mortos que utilizam as cavernas como abrigos ou nela adentram acidentalmente. Uma terceira e muito importante fonte alimentar para a fauna cavernícola é o guano, rico material orgânico oriundo principalmente das fezes de morcegos de hábitos cavernícolas. Em cavernas tropicais, especialmente as permanentemente secas, o guano de morcegos é a mais ordinária fonte de material orgânico, formando a base trófica para a estrutura de comunidades da fauna invertebrada.25

A baixa disponibilidade de recursos nas cavernas configura-se como fator limitante ao estabelecimento de inúmeras espécies e como pressão seletiva à emergência de adaptações aos organismos que nele vivem. As espécies de cavernas, portanto, apresentam adaptações morfológicas, fisiológicas e comportamentais, geralmente ligadas às condições físicas do hábitat e à essa escassa disponibilidade de recursos24. Olhos reduzidos ou ausentes, pouco necessários em ambientes sem luz, e outros órgãos sensoriais bem desenvolvidos, como antenas, e a ausência de colorações vistosas na pele são algumas das características presentes em animais cavernícolas.

Segundo o CECAV23, em dezembro de 2018 havia, 4.420 cavernas registradas na Amazônia Legal. Todas elas podem ser localizadas em nosso mapa interativo. A caverna Abismo Guy Collet, localizada no município de Barcelos (AM), região do município sob a qual também incide o Parque Estadual da Serra do Aracá, é considerada a caverna com maior desnível do Brasil, chegando a 670 metros26.

A conservação destes sistemas ecológicos, sensíveis e diferenciados é importante para a manutenção de minerais raros ou formações geológicas inigualáveis e de atividades como lazer (práticas recreativas, esportivas e de contemplação); para o armazenamento estratégico de água, com a carga e recarga de aquíferos; como fonte de informações relativas aos processos geológicos, possibilitando pesquisar a origem, a formação e as sucessivas transformações das rochas locais e do paleoclima outrora ocorrido na região; como provedor de informações da vida pretérita em seus sítios fossilíferos e arqueológicos, nos quais é possível identificar, catalogar e pesquisar espécies de animais e vegetais fósseis, além do estudo cultural dos povos do passado, onde documentos, monumentos e objetos compõem importantes registros dos hábitos vividos de uma determinada sociedade; como abrigo para conservação de habitats de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção; e como ambiente de manifestações culturais e sociais.

BIOMAS

Um dos possíveis recortes da paisagem é em porções nomeadas biomas, conceito que é fruto de ampla discussão na ciência. Bioma corresponde a uma extensa área de espaço geográfico, com dimensões de até mais de um milhão de quilômetros quadrados, que tem por características a uniformidade com relação a um macroclima definido, determinada fitofisionomia ou formação vegetal, fauna e outros organismos vivos associados, e outras condições ambientais, como a altitude, o solo, alagamentos, o fogo e a salinidade27. Estas características conferem uma estrutura e uma funcionalidade peculiares, uma ecologia própria. É importante distinguir biomas de domínios morfoclimáticos. Tais recortes não são sinônimos, uma vez que domínios relacionam-se principalmente a características climáticas, geológicas e do relevo. Há ainda o conceito de fitofisionomias, cuja definição relaciona-se principalmente à composição da vegetação do local. Biomas usualmente são constituídos por um complexo de fitofisionomias e de formações, representando um gradiente ecologicamente relacionado. Por outro lado, em um único domínio pode-se encontrar distintos biomas. Para aprofundar seu conhecimento a respeito da evolução dos conceitos acadêmicos relacionados, leia o histórico artigo do Leopoldo Coutinho aqui.

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), há seis biomas: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Aqui em nosso mapa é possível visualizar todos os biomas e suas intersecções com as UCs.

Classificações brasileiras de vegetação

Veja outros modelos de classificação no Manual Técnico da Vegetação Brasileira28, clicando aqui.

Amazônia

Filho da Floresta

Filho da floresta, água e madeira
vão na luz dos meus olhos,
e explicam este jeito meu de amar as estrelas
e de carregar nos ombros a esperança.
Um lanho injusto, lama na madeira,
a água forte de infância chega e lava.
Me fiz gente no meio de madeira,
as achas encharcadas, lenha verde,
minha mãe reclamava da fumaça.
Na verdade abri os olhos vendo madeira,
o belo madeirame de itaúba
da casa do meu avô no Bom Socorro,
onde meu pai nasceu
e onde eu também nasci.
Fui o último a ver a casa erguida ainda,
íntegros os esteios se inclinavam,
morada de morcegos e cupins.
Até que desabada pelas águas de muitas cheias,
a casa se afogou
num silêncio de limo, folhas, telhas.
Mas a casa só morreu definitivamente
quando ruíram os esteios da memória
de meu pai,
neste verão dos seus noventa anos. - 
Thiago de Mello29

O Bioma Amazônico é o bioma brasileiro de maior extensão, ocupando quase 50% do território, abriga a maior floresta tropical do mundo e contém a maior biodiversidade e a maior bacia hidrográfica do planeta. Distribui-se integralmente por cinco unidades da federação (Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima), quase integralmente Rondônia (98,8%), mais da metade de Mato Grosso (54%), além de parte de Maranhão (34%) e Tocantins (9%).O bioma Amazônico é definido pelo clima dominante quente e úmido, a predominância da fisionomia florestal, a continuidade geográfica, a condição peri-equatorial e o contexto de imensurável sociobiodiversidade30. Unidade territorial nacional, o Bioma integra o Domínio Biogeográfico Amazônico, o qual se estende por quase 7 milhões de km2 e é compartilhado por nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela, sendo que mais de 60% dele (4.212.923 km²) encontra-se no Brasil31.

A diversidade e complexidade do Bioma Amazônico é parte dos processos ecológicos de nove tipos de unidades de cobertura florestal e extensas áreas de contato (zonas de transição) entre si, com diferentes habitats e variações na composição e interação de espécies, estrutura das comunidades naturais e padrões de ciclagem de nutrientes. Devido à sua grande extensão em florestas contínuas, a Amazônia é muito importante para a estabilidade do clima regional. Ela impulsiona grandes quantidades de vapor de água originadas no Oceano Atlântico e transporta-as ao longo da América do Sul, o que assegura a regulação do regime de chuvas em lugares como a Argentina, Paraguai e o centro-sul do Brasil. Estima-se que a evaporação e a transpiração da vegetação amazônica, composta por árvores de até 50 metros de altura, liberem aproximadamente sete trilhões de toneladas de água por ano na atmosfera32. Atualmente sabe-se também que as populações amazônicas tiveram um papel muito importante na formação de paisagens e padrões das atuais paisagens, com influência na abundância, riqueza e distribuição de espécies, alteração dos nutrientes do solo, além de outras estruturas para manejo da água e da pesca e redes de transporte e comunicação, dentre outros.

Segundo o MMA, no bioma estima-se que cresçam 2.500 espécies de árvores (um-terço de toda a madeira tropical do mundo) e 30 mil espécies de plantas (das 100 mil da América do Sul). Ainda assim, o grau de conhecimento sobre os grupos taxonômicos ainda é considerado insatisfatório.

As estimativas situam a região como a maior reserva de madeira tropical do mundo. Seus recursos naturais – que, além da madeira, incluem enormes estoques de borracha, castanha, peixe e minérios, por exemplo – representam uma abundante fonte de riqueza natural. A região abriga também grande riqueza cultural, incluindo o conhecimento tradicional sobre os usos e a forma de explorar esses recursos naturais sem esgotá-los nem destruir o habitat natural. Toda essa grandeza, entretanto, não esconde a fragilidade do ecossistema local. A floresta vive a partir de seu próprio material orgânico e seu delicado equilíbrio é extremamente sensível a quaisquer interferências. Os danos causados pela ação antrópica são muitas vezes irreversíveis. Ademais, a riqueza natural da Amazônia se contrapõe dramaticamente aos baixos índices socioeconômicos da região, de baixa densidade demográfica e crescente urbanização. Desta forma, o uso dos recursos florestais é estratégico para o desenvolvimento da região.

As várias Amazônias

Bacia Amazônica – A Bacia Hidrográfica do rio Amazonas é constituída pelos rios formadores e afluentes do Rio Amazonas – o maior rio do mundo - e toda sua superfície de drenagem, sendo a mais extensa rede hidrográfica da terra, ocupando uma área total da ordem de mais de 6 milhões de km², desde suas nascentes nos Andes Peruanos até sua foz no oceano Atlântico. Esta bacia continental se estende sobre vários países da América do Sul: Brasil (63%), Peru (17%), Bolívia (11%), Colômbia (5,8%), Equador (2,2%), Venezuela (0,7%) e Guiana (0,2%), sendo que a contribuição média em volume d’água da bacia em território brasileiro, é por volta de 73% do total do País33. A Bacia Hidrográfica do rio Amazonas corresponde a quase 40% da América do Sul e 5% da superfície terrestre, sendo o maior compartimento de água doce superficial do planeta, com cerca de 15% do total disponível desse recurso34.

Região Hidrográfica Amazônica - Unidade de gerenciamento para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, é um território brasileiro artificial criado35 em consideração à necessidade de se estabelecer uma base organizacional que contemplasse bacias hidrográficas. Essa Região é constituída pela porção brasileira da bacia hidrográfica do rio Amazonas e pelas bacias hidrográficas dos rios situados na Ilha de Marajó e no Estado do Amapá, perfazendo um total de 3.870.000 km.

Amazônia Legal – A unidade administrativa conhecida por Amazônia Legal Brasileira compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e parte do Maranhão, tendo sido estabelecida inicialmente pela Lei Federal nº 5.173 (Art. 2)36, com posteriores alterações. O Mato Grosso veio a integrar este território no ato de sua criação, com o Art. 45 da Lei Federal Complementar nº 3137 e o estado do Tocantins, criado através das Disposições Transitórias da Constituição Federal (Art. 13)38, em outubro de 1988. Anteriormente o limite da Amazônia Legal neste trecho era o paralelo 13ºS, por onde foi aproximadamente dividido o Estado de Goiás e criado o do Tocantins. Sua criação e diferenciação administrativa está relacionada ao processo de desenvolvimento, ocupação e da integração dessa região às redes e fluxos que norteavam a política desenvolvimentista da época, principalmente por meio da concessão de incentivos fiscais industriais e políticas de assentamento rural.

Composta por uma área de mais de 5 milhões km² (dois terços do Brasil), a Amazônia Legal engloba todo o bioma Amazônico, 37% do Cerrado e 40% do Pantanal39, e é caracterizada por um mosaico de ecossistemas com significativas diferenças tanto em termos de estrutura e interações de comunidades e populações naturais e ocorrência e abundância de espécies da flora, fauna, fungos e microbiota. Representando 59% do território brasileiro e 775 municípios, a Amazônia Legal congrega aproximadamente 24,7 milhões de habitantes40, dentre os quais mais de 433 mil indígenas41 e diversas comunidades extrativistas tradicionais como seringueiros, castanheiros, pescadores artesanais e quebradeiras de coco de babaçu, dentre outras.

Vivem aí também mais de 350 comunidades remanescentes de quilombos32. Ao lado das populações originais indígenas, caracterizadas por uma íntima e específica relação com o ambiente, e das comunidades tradicionais que chegaram a esse território em diferentes épocas e movidas por diferentes necessidades, somam-se hoje populações que mais recentemente passaram a ocupar a região, com variadas formas de produção, de pequenos produtores rurais a grandes empresas do agronegócio.

Veja alguns dados sobre UCs desse bioma em nosso painel de dados

Caatinga

Hoje, a Serra está menos áspera e impenetrável do que no tempo do meu bisavô Dom João Ferreira-Quaderna. Ainda assim, permanece de acesso difícil e penoso. É coberta de espinheiros entrançados de unhas-de-gato, malícia, favela, alastrados, urtigas, mororós e marmeleiros. Catolezeiros e cactos espinhosos completam a vegetação, e conta-se que o sangue que embebeu a terra e as pedras, durante o reinado dos Quadernas, foi tanto que, na Sexta-Feira da Paixão de cada ano, os catolezeiros começam a gemer, as pedras a refulgir no castanho e nas incrustações de prata ou malacacheta, e as coroas-de-frade começam a minar sangue, vermelho e vivo como se tivesse sido há pouco derramado. - Ariano Suassuna.42

O bioma Caatinga é exclusivo do Brasil e patrimônio biológico único no planeta, localizado na região do semiárido (compreendida pelo agreste e sertão) e que abrange quase todo o Nordeste (exceto a zona litorânea e oeste do Maranhão, Piauí e Bahia) e algumas áreas do norte do estado de Minas Gerais. São aproximadamente 84 milhões de hectares de superfície (844.453 de km²) que representa 11% do território nacional43.

O nome "caatinga" é de origem tupi-guarani e designa uma floresta esbranquiçada, característica esta que é nítida durante o período das secas, quando a vegetação perde as folhas e os troncos e galhos se tornam esbranquiçados44. Muitas são as particularidades de suas comunidades biológicas, devido à variação dos tipos de ambientes e microclimáticas e às diferentes estratégias de sobrevivência desenvolvidas pelas espécies de plantas, durante os longos períodos estiagem. Entre as estratégias está a queda das folhagens, como forma de evitar a perda de água, as quais rapidamente são renovadas com presença de chuvas.

O clima da Caatinga apresenta características extremas, desde a mais alta temperatura média anual aos mais baixos índices de umidade e pluviosidade. As chuvas são restritas em poucos meses durante o ano, ocorrendo episódios críticos de escassez de chuvas durante sucessivos anos. Na região do agreste, entre a Serra do Mar e o interior mais seco, as chuvas são mais abundantes. A diversidade climática e edáfica propicia a diversidade de fisionomias, como as florestas altas e secas e comunidades vegetais arbustivas e herbáceas, cactáceas e bromeliáceas e muitos endemismos de plantas e animais. Um exemplo é a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), uma das espécies mais ameaçadas de extinção e endêmica da Caatinga45.

Até o ano de 2017, mais de 60% da população nordestina vivia na Caatinga (27 milhões de habitantes, cerca de 18% do total da população do Brasil), embora esteja entre as regiões com os mais baixos índices de desenvolvimento humano do país43 e 44. A biodiversidade da Caatinga promove diversas atividades econômicas agropastoris e de indústrias químicas, farmacêuticas, de alimentos e cosméticos. Um exemplo é a carnaubeira (Copernicia prunifera), uma palmeira nativa amplamente explorada (folhas, o caule, o talo, a fibra, o fruto e as raízes) para a fabricação de produtos artesanais e industriais, como a cera de carnaúba utilizada para a conservação de produtos alimentícios, o revestimento de pisos e a proteção de veículos automotivos.

Apesar dessa importância, a Caatinga é um bioma pouco estudado no meio acadêmicos e também o mais ameaçado. Estima-se que a caatinga perde por ano uma área de vegetação nativa equivalente a duas vezes a cidade de São Paulo43 e 44. Nos últimos anos, o desmatamento tem crescido de modo acelerado, principalmente com o corte de madeira de forma ilegal, resultando na redução de metade desse bioma.

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Conheça mais sobre as populações tradicionais da Caatinga e do Cerrado - http://www.cerratinga.org.br/populacoes/

Cerrado

Eu sou a dureza desses morros
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo
Pastados
Calcinados
e renascidos - 
Cora Coralina46

O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e ocupa 2.036.448 km², ou 204 milhões de hectares (22% do território nacional), estendendo seu domínio nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além de partes do Amapá, Roraima e Amazonas. No entanto, grande parte desse bioma está situada no Planalto Central Brasileiro, local de origem das grandes bacias hidrográficas brasileiras e do continente sul-americano, além de ser um divisor das águas no país47. Muitos rios que correm para as bacias Araguaia-Tocantins, Paraná, São Francisco e até o Amazonas, nascem no Cerrado, o que explica a existência de inúmeras nascentes, lagos e rios de diversas ordens. Devido a esse papel, a conservação do Cerrado é fundamental na garantia de água para muitas regiões do país e, por tal, é reconhecido como o "berço das águas brasileiras”.48

Assim como os demais biomas, o Cerrado, "não é um bioma único, mas um complexo de biomas, formado por um mosaico de comunidades pertencentes a um gradiente de formações ecologicamente relacionadas, que vai de campo limpo a cerradão".49

Estas características "conferem uma estrutura e uma funcionalidade peculiares (...) e que inclui outro elemento de importância na determinação de certos ambientes terrestres"48, a ocorrência e recorrência natural do fogo. Esta característica foi demonstrada através de vários estudos que atestam a presença do fogo há milhões de anos, como um fator determinante nas características físicas do Cerrado.

Todos esses aspectos contribuem para a grande riqueza e alta diversidade biológica e endemismo, que elevaram o Cerrado à categoria de hotspots mundial. São mais de 11 mil espécies de plantas nativas registradas, além de refúgio de 13% de tipos de borboletas, 35% de abelhas e 23% dos cupins das áreas tropicais. Essa diversidade é favorecida pela alta produtividade do Cerrado, devido ao clima tropical e fortemente marcado por estações bem definidas de seca (abril-maio a setembro-outubro) e chuvas (setembro-outubro a março-abril, verão). A temperatura mínima chega a 10º C no inverno, ou até menos, e até 40º C no verão, mas em geral é predominantemente alta ao longo do ano47,48,49 e 50.

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Alternativas de manejo do Cerrado já são praticadas, dado a diversidade de frutos nativos amplamente consumidos e comercializados nos centros urbanos como o pequi (Caryocar brasiliense), o buriti(Mauritia flexuosa),a mangaba (Hancornia speciosa), a cagaita (Eugenia dysenterica), o bacupari (Salacia crassifolia), o cajuzinho do cerrado (Anacardium humile), o araticum (Annona crassifolia) e as sementes do barú (Dipteryx alata).

"O baru é um fruto típico do Cerrado brasileiro. A castanha tem cerca 23% de proteína e é um alimento de alto valor nutricional. Em receitas e confeitos a castanha de baru pode substituir o amendoim, a castanha de caju ou qualquer outra castanha. Torrada e salgada, pode ser consumida sozinha, como aperitivo. É também utilizada em diversas receitas, doces ou salgadas, como bolos, pães, pé de moleque, cookies, brigadeiro, barra de cereais, granolas e paçoca".51

O intenso desmatamento e a extração predatória do Cerrado têm levado ao desaparecimento e perda dessas espécies como o baru, cuja madeira é reconhecida pela resistência e qualidade, com propriedades fungicidas51. A amêndoa no interior de seu fruto, protegida por uma dura casca, possui sabor similar ao do amendoim, de alto valor nutricional, apreciada e comercializada mundialmente.

Ao longo dos milhares de anos, o Cerrado foi manejado pelas diferentes populações humanas indígenas e, também, pelos quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, babaçueiras, vazanteiros (ou "barranqueiros", famílias que habitam as ilhas e barrancos de rios como São Francisco, Tocantins e Araguaia, cuja agricultura está associada aos ciclos de enchente, cheia, vazante e seca51 e 52. Os conhecimentos sobre os frutos, madeiras e inúmeras ervas que essas populações detêm constituem junto ao bioma uma marca importante em termos de patrimônio histórico e cultural do país. Segundo o MMA50, mais de 220 espécies do Cerrado têm uso medicinal e mais 416 podem ser usadas na recuperação de solos degradados, como barreiras contra o vento, proteção contra a erosão, ou para criar habitat de predadores naturais de pragas.

Geraizeiros

"Nas margens do Rio São Francisco, onde as águas cortam o norte de Minas Gerais, e na área de transição entre o Cerrado e a Caatinga, no oeste da Bahia, habitam os geraizeiros, reconhecidos como agricultores dos planaltos, encostas e vales do Cerrado. A nomenclatura destas populações advém do termo “Gerais” como sinônimo de Cerrado. Segundo seus moradores históricos, antes não havia referência ao Cerrado, apenas aos Gerais, daí o nome geraizeiros".51

Mata Atlântica

Passaredo

Ei, pintassilgo
Oi, pintarroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge, asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tié-sangue
Xô, tié-fogo
Xô, rouxinol, sem-fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde, colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí  - 
Chico Buarque / FH53

O bioma Mata Atlântica foi o primeiro e o mais intensamente explorado desde o período colonial. Originalmente, a Mata Atlântica recobria uma faixa ao longo da costa brasileira, em 17 estados brasileiros do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, com aproximadamente de 1.300.000 km² 54; no Sudeste, esse bioma se expandia por 300-400 km para o interior, devido às condições climáticas e ao relevo fortemente marcado pelas escarpas montanhosas que acompanham a Serra do Mar, constituindo novas fisionomias desde a planície costeira às florestas estacionais do planalto55 e 56. Com o uso do fogo para abrir as primeiras pastagens, a agricultura itinerante e a cultura do café, aos poucos, os colonos europeus ganharam suas terras e derrubaram a floresta e, até hoje, seus remanescentes florestais continuam sendo drasticamente reduzidos. No período entre 2015-2016, por exemplo, houve um aumento maior do desmatamento desse bioma, em diferentes estados como Bahia, Minas Gerais, neste último, com a conversão de floresta para obtenção de carvão e plantios de eucalipto55 e 57.

A Mata Atlântica representa um mosaico de ecossistemas caracterizados pela Floresta Ombrófila Densa, Floresta Ombrófila Aberta e Floresta Ombrófila Mista; pela Floresta Estacional Decidual e Semidecidual, e outros ecossistemas associados como mangues, restingas, campos de altitude, brejos interioranos e ilhas oceânicas. Apesar de representar 0,8% da superfície terrestre do planeta e mesmo fortemente impactada, estima-se que na Mata Atlântica sobrevivam ainda cerca de 20.000 espécies vegetais (cerca de 35% das espécies existentes no Brasil) e 2 mil espécies de animais vertebrados, sem contar os insetos e outros invertebrados55. Devido a estes aspectos, esse bioma é considerado mundialmente como Reserva da Biosfera pela UNESCO, além de Patrimônio Nacional, conforme a Constituição Federal do Brasil. Além disso, versa sobre sua proteção a Lei Federal nº 11.428/2006 que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, bem como o Decreto nº 6.660/2008 que a regulamenta. Conhecida como Lei da Mata Atlântica, também regula a exploração sustentável de seus recursos definindo diferentes parâmetros, para cada um dos estágios de remanescentes de vegetação nativa - primário, secundário inicial, médio e avançado de regeneração58.

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Nesta região concentram-se cerca de 72% da população brasileira (aproximadamente 145 milhões de habitantes) em 3.429 municípios, responsáveis por 70% Produto Interno Bruto Nacional55 e 57. Assim, são vários os desafios na conservação da Mata Atlântica e, ao mesmo tempo, na busca por soluções alternativas e econômicas que reduzam a pressão sobre esse ecossistema. Dentre eles estão a manutenção da vegetação primária, a preservação das nascentes e de mananciais - muito imersos em áreas densamente consolidadas que abastecem as cidades - e o controle da extração de seus recursos naturais ameaçados de extinção, como orquídeas, samambaias e o palmito juçara (Euterpe edulis), e a caça de animais silvestres. Além disso, entre os principais desafios está o respeito aos modos de vida e a destinação dos territórios tradicionais às diferentes populações tradicionais - caiçaras, caipiras, açorianos, quilombolas, ou ainda os pescadores artesanais59 e 60, que se unem à diversidade sociocultural indígena, representada por grupos como: Guarani, Kaingang, Xocleng, Pataxó, Tupiniquim, Krenak e Terena (veja outros grupos aqui link site PIB. Por meio da resistência em seus territórios, esses povos tradicionais contribuem na conservação de extensos fragmentos de mata, manutenção de serviços ecossistêmicos, estoque de carbono e práticas modelo de manejo sustentável, conciliando a preservação das espécies da fauna e flora e a manutenção de seus costumes, saberes e práticas.

Pampa

Por onde o olhar se esparrama pelo horizonte lá está o pampa. Um imenso mar verde que tem suas beiradas no Rio da Prata e seu fim, se é que o tem, na Patagônia, bem mais ao sul. Ao se depararem com seu gigantismo solitário (...) , os argentinos chamaram-no de "deserto". - Voltaire Schilling*61

Os Pampas ou Campos Sulinos remetem nossa lembrança quase sempre a uma paisagem dominada por relevo plano, sob um clima frio e árido e, ao mesmo tempo, quente e úmido, basicamente recoberta por gramíneas e árvores esparsas. Apesar destes elementos serem parte, nenhum deles descreve bem e amplamente as paisagens e riquezas desse bioma. De certo modo, a falta de um consenso ao redor dos vários nomes igualmente atribuídos - como Campos do Sul, Campanha Gaúcha, Pampas Gaúcho, ou simplesmente Campos - ou em torno da origem cultural e identidade do povo gaúcho, reflete a importância dos Pampas nos debates acadêmicos e políticas públicas ao redor da sua conservação. Assim como os demais biomas, suas paisagens não podem ser dissociadas da história econômica e cultural62. Os primeiros colonizadores europeus encontraram nessa região da América do Sul paisagens campestres, abertas e muito apropriadas para as atividades econômicas que foram imprimidas posteriormente, como a pecuária62.

Os Pampas abrangem parte dos territórios do Brasil, Uruguai, Paraguai e a Argentina (cerca de 750 mil km²), onde vivem 35 milhões de habitantes. Representam 2,0% do território brasileiro (18 milhões de hectares ou 176.496 km²), sendo o segundo menor dos biomas em extensão. Na escala global, representam 2,5% das terras agricultáveis63 e 66 do planeta. São considerados ecossistemas naturais, em que o predomínio de gramíneas entremeadas com as espécies de porte arbóreo, viveram sob diferentes mudanças climáticas, ao longo do tempo geológico, e também da influência da ação humana através do uso do fogo.

Há milhares de anos atrás, o clima era mais seco e frio, o que possibilitou a formação de pradarias e, apenas há quatro mil anos atrás, o clima mais úmido propiciou a expansão de araucárias e florestas ao longo dos cursos d'água e nas serras66. As estações são bem definidas, as chuvas distribuídas ao longo do ano e as temperaturas médias variam entre 15ºC a 18ºC. Os Pampas representam um imenso patrimônio natural, cultural e material associados. Devido ao solo fértil e à presença de gramíneas, os Pampas serviram à pecuária extensiva durante mais de trezentos anos, quando o gado doméstico foi introduzido pelos jesuítas nas Missões do Rio Grande do Sul, no século XVII62. A partir de então, outras atividades econômicas contribuíram para a redução da biodiversidade, sobretudo nos últimos 20 anos, em que, por exemplo, o Rio Grande do Sul saiu de cerca de 63% de cobertura pelos Pampas para, atualmente, mais de 40% do bioma destruído63. A introdução da agricultura em larga escala (sojicultura e rizicultura), de espécies exóticas, como o gramínea africana Eragrostis plana, e de lenhosas como o Pinus sp e Eucalyptus, aceleraram em muito com a fragmentação das áreas remanescentes66.

As políticas atuais de conservação dos Pampas são ainda insuficientes. As áreas remanescentes correm o risco de serem ainda reduzidas com a aprovação do projeto de Lei Estadual do Rio Grande do Sul, n° 145 de 29 de novembro de 2016, que amplia o plantio de lavouras de silvicultura64 e 66.

Veja alguns dados sobre UCs desse bioma em nosso painel de dados.

Há excelentes iniciativas voltadas à conservação do Pampa, como foi o encaminhamento de uma proposta para emenda parlamentar, por ambientalistas gaúchos, para incluir os Campos Sulinos na lista de biomas considerados patrimônio nacional, no parágrafo 4º do artigo 225 da Constituição Federal65. Há também projetos de recuperação das áreas degradadas pela erosão, em áreas agropastoris e medidas para a criação de corredores ecológicos, integrando a conservação e o desenvolvimento da região. Outros usos alternativos em expansão é o cultivo da nogueira pecã (Carya illinoensis) e da oliveira (Olea europaea L.), que possuem um grande potencial econômico67. O Pampa é fonte de variabilidade genética para diversas espécies que estão na base de nossa cadeia alimentar. Instituições e centros de pesquisa no Rio Grande do Sul também têm se dedicado ao resgate de variedades de sementes crioulas de milho, arroz e feijão, produzidas em sistemas agrícolas familiares há centenas de gerações. Nesse resgate, os pesquisadores têm buscado informações sobre as características morfológicas, a história da variedade, da resistência às doenças, da aptidão ao clima, entre outros aspectos. Essas sementes crioulas são multiplicadas e distribuídas aos agricultores familiares, como o caso do milho branco açoriano68.

Pantanal

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de
um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por
trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma
volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
- Manoel de Barros (1916-2014)
69

O bioma Pantanal, com área de extensão de aproximadamente 250.000 km², situa-se entre o sul do Mato Grosso e noroeste de Mato Grosso do Sul no Brasil e norte do Paraguai e leste da Bolívia, onde é conhecido como Chaco. Trata-se da maior planície alagável do mundo, embora ocupe, dentre os biomas, a menor extensão territorial no Brasil: são cerca de 150 mil km² (1,8% do território nacional). Apesar de a paisagem ser identificada pelas suas características "savânicas", o Pantanal é uma importante conexão natural entre as bacias hidrográficas do Prata e Amazônica, fortemente influenciado por este e pelos biomas do Cerrado e da Mata Atlântica.

Assim, o Pantanal partilha espécies comuns a cada um desses biomas70, 71, 72 e 73 e é reduto de diversas espécies ameaçadas de extinção, estas que aí estão em condições de vida favoráveis, como a ave símbolo do Pantanal, o tuiuiú73. Mais de duas mil espécies de plantas já foram identificadas neste bioma, além de seu imenso potencial para a indústria de fármacos73. O Pantanal é reconhecido como Patrimônio Nacional pela Constituição Federal brasileira, Reserva da Biosfera e Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. Abriga ainda três Sítios Ramsar (Áreas Úmidas de Importância Internacional): o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, a Reserva Particular do Patrimônio Natural SESC Pantanal e Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Rio Negro73.

Seus rios nascem nos planaltos, de onde percorrem grandes extensões, serpenteando ao longo dos leitos em direção às terras baixas72. Um dos mais importantes é o rio Cuiabá, conhecido historicamente pela sua importância econômica à capital de mesmo nome, no estado de Mato Grosso. Serviu como via de transporte e escoamento da produção, entre os séculos XVIII até meados do século XX. Ainda, ao longo dele vivem muitas famílias ribeirinhas. Uma das paisagens avistadas ao navegar ao longo de sua planície é a Serra do Amolar, próxima à fronteira com a Bolívia, entre os municípios de Cáceres (MT) e Corumbá (MS).

No Pantanal, os diferentes ecossistemas bem como as atividades produtivas de seus habitantes são definidos pela dinâmica das inundações e, sob influência do clima fortemente sazonal, o ciclo de cheias e vazantes muda radicalmente a paisagem desse bioma. Esta área de depressão sazonalmente inundada representa 50% da bacia hidrográfica do Alto Paraguai, que abastece população estimada em mais de um milhão de habitantes no Brasil, e ainda uma significativa parcela dos habitantes na Bolívia e no Paraguai71 e 72. O uso e manejo na planície residem na pecuária, pesca, turismo e, em menor escala, na agricultura. Já no planalto, onde estão suas nascentes, a agricultura de grãos e a pecuária dominam, ocasionando também um grande impacto sobre os ambientes pantaneiros, assoreamento e poluição dos rios, agravados pelo uso de biocidas em larga escala71.

A diversidade cultural expressa outras riquezas no Pantanal, presente nas comunidades tradicionais, como os índios Guató, os quilombolas, os coletores de iscas, os ribeirinhos e pescadores artesanais, além de pecuaristas, conhecidos pelo ritmo característico de suas travessias com os rebanhos, em meio à planície alagada73. Essa diversidade cultural influenciou em muito a formação da cultura pantaneira.

Veja alguns dados sobre UCs desse bioma em nosso painel de dados

Muito tem se discutido entre cientistas e técnicos de órgãos públicos sobre as atividades econômicas alternativas, que possam se beneficiar das riquezas naturais do Pantanal e propiciar geração de renda às comunidades rurais de agricultura familiar. Uma dessas alternativas foi o desenvolvimento da apicultura, que pode ocorrer em larga escala devido à existência de áreas naturais, ou com baixa perturbação dos ambientes.

Agrobiodiversidade

Autoria: Juliana Santilli (Sócia-fundadora do ISA) (2010)

O que é agrobiodiversidade

O conceito de agrobiodiversidade reflete as dinâmicas e complexas relações entre as sociedades humanas, as plantas cultivadas e os ambientes em que convivem, repercutindo sobre as políticas de conservação dos ecossistemas cultivados, de promoção da segurança alimentar e nutricional das populações humanas, de inclusão social e de desenvolvimento local sustentável.

A biodiversidade ou diversidade biológica – a diversidade de formas de vida – encobre três níveis de variabilidade: a diversidade de espécies, a diversidade genética (a variabilidade dentro do conjunto de indivíduos da mesma espécie) e a diversidade ecológica, que se refere aos diferentes ecossistemas e paisagens. Isso ocorre também em relação à agrobiodiversidade, que inclui a diversidade de espécies (por exemplo, espécies diferentes de plantas cultivadas, como o milho, o arroz, a abóbora, o tomate etc.), a diversidade genética (por exemplo, variedades diferentes de milho, feijão etc.) e a diversidade de ecossistemas agrícolas ou cultivados (por exemplo, os sistemas agrícolas tradicionais de queima e pousio, também chamados de coivara ou itinerantes, os sistemas agroflorestais, os cultivos em terraços e em terrenos inundados etc.). Os agroecossistemas são áreas de paisagem natural transformadas pelo homem com o fim de produzir alimento, fibras e outras matérias-primas74. Uma das características dos agroecossistemas é a predominância de espécies de interesse humano e uma organização espacial que estrutura e facilita o trabalho de produção, segundo Kátia Marzall75.

A agrobiodiversidade, ou diversidade agrícola, constitui uma parte importante da biodiversidade e engloba todos os elementos que interagem na produção agrícola: os espaços cultivados ou utilizados para criação de animais domésticos, as espécies direta ou indiretamente manejadas, como as cultivadas e seus parentes silvestres, as ervas daninhas, os parasitas, as pestes, os polinizadores, os predadores, os simbiontes76 (organismos que fazem parte de uma simbiose, ou seja, que vivem com outros) etc., e a diversidade genética a eles associada (também chamada de diversidade intraespecífica, ou seja, dentro de uma mesma espécie). A diversidade de espécies é chamada de diversidade interespecífica.

A Convenção sobre Diversidade Biológica não contém uma definição de agrobiodiversidade, mas, segundo a Decisão V/5, a agrobiodiversidade é um termo amplo que inclui todos os componentes da biodiversidade que têm relevância para a agricultura e a alimentação, e todos os componentes da biodiversidade que constituem os agroecossistemas: a variedade e a variabilidade de animais, plantas e micro-organismos, nos níveis genético, de espécies e de ecossistemas, necessários para sustentar as funções-chaves dos agroecossistemas, suas estruturas e processos. Portanto, os componentes da biodiversidade agrícola incluem: a diversidade vegetal, domesticada e silvestre (alguns autores excluem as plantas e os animais selvagens da definição de agrobiodiversidade por considerarem que, embora sejam importantes para os agricultores, não fazem parte dos sistemas agrícolas77); a diversidade de animais domésticos (das cerca de 50.000 espécies de mamíferos e aves conhecidos, aproximadamente quarenta foram domesticadas, e dessas espécies os agricultores desenvolveram cerca de 5.000 raças adaptadas a condições ambientais locais e a necessidades específicas); - a diversidade da fauna aquática (os peixes e outras espécies aquáticas são parte integrante de muitos sistemas agrícolas importantes); - a diversidade subterrânea (as raízes levam os nutrientes e a água até as plantas e estabilizam o solo); - a diversidade microbiana (os microrganismos reciclam e disponibilizam muitos nutrientes necessários às plantas, entre outras funções) ; a diversidade de insetos (como abelhas e outros polinizadores), aranhas e outros artrópodes (gafanhotos, centopeias etc.), que agem muitas vezes como inimigos naturais de seres nocivos às plantas; a diversidade de ecossistemas78. Neste texto nos concentraremos sobretudo na diversidade de plantas cultivadas e de agroecossistemas, mais do que na diversidade de animais domésticos e de outros componentes da biodiversidade agrícola.

Embora os termos “agrobiodiversidade” e “agrodiversidade” sejam usados com frequência como sinônimos, há autores79 que sustentam que agrobiodiversidade e agrodiversidade têm significados diferentes. “Agrobiodiversidade”, um termo mais antigo e comum, seria usado para definir a diversidade biológica existente em ecossistemas cultivados. “Agrodiversidade” seria uma expressão mais abrangente, empregada para se referir “às muitas formas pelas quais os agricultores usam a diversidade natural do ambiente para a produção agrícola, incluindo não apenas as escolhas de espécies e variedades de plantas para o cultivo como também o manejo das terras, águas, e da biota como um todo80”.

Outra definição de “agrodiversidade” seria “a variedade resultante da interação entre os fatores que determinam os agroecossistemas: os recursos genéticos de plantas, os ambientes bióticos e abióticos e as práticas de manejo81. Utilizaremos o termo “agrobiodiversidade” por ser mais conhecido.

A agrobiodiversidade é essencialmente um produto da intervenção do homem sobre os ecossistemas: de sua inventividade e criatividade na interação com o ambiente natural. Os processos culturais, os conhecimentos, práticas e inovações agrícolas, desenvolvidos e compartilhados pelos agricultores, são um componente-chave da agrobiodiversidade. As práticas de manejo, cultivo e seleção de espécies, desenvolvidas pelos agricultores ao longo dos últimos 10.000 a 12.000 anos, foram responsáveis, em grande parte, pela enorme diversidade de plantas cultivadas e de agroecossistemas e, portanto, não se pode tratar a agrobiodiversidade dissociada dos contextos, processos e práticas culturais e socioeconômicas que a determinam e condicionam. Por isso, além da diversidade biológica, genética e ecológica, há autores que agregam um quarto nível de variabilidade: o dos sistemas socioeconômicos e culturais que geram e constroem a diversidade agrícola.

Para Harold Brookfield, a diversidade agrícola inclui a diversidade dos sistemas de propriedade das terras utilizadas para a agricultura, as diferenças entre os agricultores em relação ao acesso à terra, a distribuição espacial e o tamanho das propriedades rurais, as divisões de trabalho em função de idade e gênero e a cooperação no trabalho, a dependência dos agricultores de trabalhos externos às propriedade rurais, entre outras. Brookfield destaca que nenhum sistema agrícola pode ser compreendido sem a consideração das formas como as propriedades rurais se organizam e como as forças (sociais, econômicas e políticas) interagem para influenciar e moldar tal organização. Ele destaca a importância crucial do dinamismo da agrobiodiversidade, uma “colcha de retalhos em constante transformação, criada pelas relações entre as pessoas, as plantas e o ambiente, que estão sempre lidando com novos problemas e em busca de novos caminhos”. Segundo ainda Brookfield, o “dinamismo adaptativo” da agrobiodiversidade é a característica mais importante para a sua sobrevivência e para a recuperação do que já foi perdido. Afinal, os agricultores têm a capacidade de se adaptar tanto à adversidade como à oportunidade, e os processos de aprendizagem e experimentação são constantemente renovados82.

A diversidade resulta tanto de fatores naturais quanto culturais. Assim, há sociedades que adaptam variedades de arroz ao cultivo aquático, submerso em água, em regiões úmidas, e há outras que adaptam variedades de arroz ao cultivo em regiões secas. As diferentes variedades de milho podem ser usadas para se comer diretamente da espiga, para alimentar os animais, para fazer pipoca e farinha ou para a fermentação da cerveja. São usadas também para fins ornamentais (principalmente aquelas com pigmentos coloridos), medicinais ou religiosos. O agrônomo Jack Harlan conta que observava um agricultor etíope selecionar (para plantio no ano seguinte) as sementes das variedades de sorgo de espiga torta. Ao indagar-lhe a razão daquele procedimento, o agricultor etíope respondeu simplesmente: “Porque essas são mais fáceis de pendurar no telhado”83.

Outros agricultores selecionavam variedades de sorgo com sabor adocicado para mascar. Outras variedades de sorgo eram separadas para fazer pão e cerveja, e as variedades com fibras mais resistentes para fazer cestos e usar em construções. Uma mesma espécie pode ser usada para fins alimentícios ou como medicamento, e as diferentes partes de uma mesma planta podem também ter serventias diferentes. As plantas têm ainda usos em rituais e em cerimônias religiosas, e muitos nomes podem ser dados às variedades de uma mesma espécie. A diversidade agrícola pode também se expressar tanto em características perceptíveis pelo olhar humano, como variações de cor, forma, altura, tamanho e formato das folhas, quanto em variações genéticas, como resistência a secas, pestes e doenças, alto teor nutritivo etc., e a sua perda é difícil de ser avaliada e mensurada com exatidão. A extinção dos saberes, práticas e conhecimentos agrícolas é ainda mais difícil de ser avaliada e mensurada.

Mesmo que não se possa estimar exatamente a dimensão da perda, a diversidade agrícola está ameaçada, e ela constitui a base da sobrevivência das populações rurais, notadamente as de baixa renda. O Relatório sobre o Estado dos Recursos Genéticos de Plantas do Mundo, apresentado durante a 4ª Conferência Técnica Internacional sobre os Recursos Fitogenéticos, realizada em Leipzig, na Alemanha, de 17 a 23 de junho de 1996, foi um alerta importante para a grave erosão genética e cultural provocada pelos sistemas agrícolas modernos. O relatório84 foi a primeira avaliação global e sistemática do estado de conservação e uso dos recursos fitogenéticos existentes no planeta. Segundo o relatório, nos últimos cem anos, os agricultores perderam entre 90% e 95% de suas variedades agrícolas. Consta ainda do relatório que:

  1. Na Coreia do Sul, apenas um quarto das catorze variedades vegetais nativas cultivadas em jardins e hortas em 1985 continuavam a existir em 1993. Apenas 20% das variedades de milho que existiam no México nos anos 1930 ainda existem hoje.
  2. Nos Estados Unidos, 95% das variedades de repolho e 94% das variedades de ervilha, 81% das variedades de tomate deixaram de existir no último século. Das 7.098 variedades de maçã existentes entre 1804 e 1904 86% já não existem.
  3. Na China, das 10.000 variedades de trigo utilizadas em 1949 apenas mil ainda eram usadas nos anos 1970. Até os anos 1970, cerca de 5.000 variedades de arroz eram cultivadas na Índia, das quais apenas quinhentas continuam a existir, e entre dez e vinte variedades ocupam a maior parte do território indiano.

A perda da biodiversidade agrícola é causada sobretudo pela substituição das variedades locais e tradicionais, que se caracterizam por sua ampla variabilidade genética, pelas variedades “modernas”, de alto rendimento e estreita base genética. Segundo o referido relatório, essa é a principal causa de erosão genética (citado em 81% dos relatórios nacionais, apresentados pelos países). Desapareceram tanto espécies como as variedades cultivadas dessas espécies, e não só as espécies domesticadas pelo homem como também os seus parentes silvestres continuam a desaparecer, em virtude da rápida devastação dos ecossistemas naturais.

Em alguns casos, o desaparecimento de uma variedade pode não levar necessariamente à perda da diversidade genética, já que os seus genes podem existir também em outras variedades, mas as variedades representam, em si, uma combinação única de genes, com valor e utilidade também únicas. Estima-se ainda que a perda de uma planta pode causar o desaparecimento de quarenta tipos de animal e inseto, que dela dependem para sobreviver, além de combinações genéticas e moléculas únicas na natureza.85

A perda da diversidade de raças de animais domésticos também é extremamente preocupante, se considerarmos suas inúmeras utilidades para os homens: fornecem alimentos (carnes, ovos, leite, queijos etc.), vestimentas (algodão, lãs, peles etc.), transporte etc. Os animais são também usados em práticas esportivas e como cobaias para experiências científicas, em rituais religiosos, como alimentos para outros animais (iscas para pesca, por exemplo) etc. Tal como ocorre com as plantas, o uso dos animais varia em cada cultura. Em países como a China, Vietnã e Coreia, por exemplo, a carne de cachorro é usada para alimentação humana (existindo até mesmo a crença de que melhoraria o desempenho sexual). Na China, há cinco espécies de tartaruga que são criadas em fazendas, e vendidas em mercados regionais para alimentação humana e usos medicinais. Em Singapura, o escorpião-negro frito é degustado como saboroso petisco (as altas temperaturas em que é preparado neutralizam seu veneno); a carne de canguru é servida até mesmo em pizzarias na Austrália e as formigas (principalmente a içá e a saúva), as larvas da taquara e os marimbondos fazem parte do cardápio de alguns povos indígenas amazônicos. Na Argentina come-se churrasco de testículos de touro; na Bolívia, a carne de lhama é um prato típico; e é comum encontrar, nos restaurantes da Bolívia e da Colômbia, o porquinho-da-índia assado.

Segundo o Relatório sobre o Estado dos Recursos Genéticos Animais para Alimentação e Agricultura no Mundo, cerca de 20% das raças de vacas, cabras, porcos, cavalos e aves existentes no mundo estão ameaçadas de extinção, e nos últimos seis anos 62 raças de animais foram extintas, o que representa a perda de quase uma raça por mês. Esse relatório foi divulgado durante a 1ª Conferência Técnica Internacional sobre Recursos Genéticos Animais para Alimentação e Agricultura, realizada em Interlaken, na Suíça, de 3 a 7 de dezembro de 200786.

Há também estimativas de que, ao longo deste século, das 3.831 raças de bovinos, búfalos, cabras, porcos, carneiros, cavalos e burros existentes 16% se extinguiram e 15% se tornaram raras, e de que 617 raças de animais domésticos desapareceram desde 189287. Tanto a diversidade animal como a diversidade vegetal estão, portanto, ameaçadas.

Bibliografia

Saiba Mais

Notas e Referências

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